Aprendizagem para o domínio: entenda e aplique esse conceito


Neste artigo, a professora e pesquisadora Liliane Rezende apresenta duas ferramentas imprescindíveis à aprendizagem personalizada: a Taxonomia de Bloom e o conceito de Aprendizagem para o Domínio.



Fonte: Wix.


No ensino tradicional, cada conteúdo é ensinado respeitando uma ordem cronológica. Existe um período determinado para cada conteúdo e um planejamento para que se desenvolvam as habilidades e competências em cada nível de ensino. Na maioria das vezes, um conteúdo precisa do outro que precisa do outro e assim sucessivamente. Em uma sala de aula com 30 ou 40 alunos, realidade de muitas escolas brasileiras, existe uma dificuldade em verificar o que de fato cada estudante aprendeu antes do próximo conteúdo ser ensinado. A programação “tem que andar” e, sob este pretento, surgem as lacunas no processo de aprendizagem e, consequentemente, o fracasso escolar.


Para mitigar esse impasse entre tempo e conteúdo a ser ministrado, surge a Aprendizagem para o Domínio, uma teoria educacional em que cada pessoa aprende no seu tempo, com a sua personalidade e de acordo com níveis hierárquicos de aprendizagem. Esta é a proposta levantada pelo pesquisador Benjamin S. Bloom, que, além de ter cunhado o termo mastery learning, contribuiu para um projeto de pesquisa do qual resultou um método com o seu nome, a Taxonomia de Bloom.


A Aprendizagem para o Domínio diz que todos e todas podem aprender qualquer assunto, desde que existam condições favoráveis de aprendizagem e que entendamos que cada ser é único e tem a sua maneira e tempo próprios para aprender. Dentro desta teoria, o estudante só deve avançar para o novo conteúdo quando ele/ela atingir um elevado nível de compreensão do conteúdo atual. Vale conferir o que Galhardi e Azevedo comentam a esse respeito:


Benjamin S. Bloom e outros educadores/as assumiram a tarefa de classificar metas e objetivos educacionais com a intenção de desenvolver um sistema de classificação para três domínios: o cognitivo, o afetivo e o psicomotor. Criaram, no domínio cognitivo, a Taxonomia de Bloom. A principal ideia da taxonomia é que aquilo que os/as educadores/as esperam que os alunos saibam (englobado na declaração de objetivos educacionais) possa ser arranjado numa hierarquia do nível de menor complexidade para o de maior complexidade. (GALHARDI E AZEVEDO, p.239, 2013)


De acordo com Santana Junior, Pereira e Lopes (2008), a Taxonomia de Bloom é uma teoria de aprendizagem em que existe uma hierarquia no desenvolvimento da aquisição do conhecimento. É nessa perspectiva que, em sua obra, Bloom explora o tema do domínio cognitivo, que, para ele, é dividido em seis categorias comportamentais hierarquizadas do nível mais simples ao mais complexo, são elas:




Taxonomia de Bloom, 1956

Fonte: Liliane Rezende, 2021


Hoje em dia, os substantivos acima foram trocados pelos verbos: memorizar, compreender, aplicar, analisar, avaliar e criar. (FERRAZ e BELHOT, 2010). Vamos compreender isso melhor através de um exemplo prático. Digamos que somos professores/as de matemática dos anos iniciais do Ensino Fundamental e estamos trabalhando as quatro operações básicas: adição, subtração, multiplicação e divisão.


Aplicando aqui a Taxonomia de Bloom, teríamos as seguintes habilidades para cada nível taxonômico:


● conhecimento - o estudante reconhecerá ou recordará as quatro operações básicas;


● compreensão - o estudante é capaz de imprimir significados sobre as quatro operações básicas; já consegue diferenciá-las e resolvê-las;


● aplicação - o estudante consegue, com pouca supervisão, aplicar as quatro operações básicas;


● análise - o estudante consegue analisar e comparar onde se utiliza cada uma das operações apreendidas;


● síntese - o estudante consegue criar e observar padrões e situações novas de aplicações para as quatro operações;


● avaliação - o estudante, por fim, consegue fazer uma crítica e justificativa da utilização das quatro operações.


Em 1964, Benjamin S. Bloom observou que as lacunas deixadas pelo percurso formativo poderiam estar relacionadas a diversos fatores, entre eles os poucos recursos que os/as professores/as podiam oferecer em suas aulas. A maioria dos docentes ensinavam para todos os alunos e alunas da mesma maneira e ao mesmo tempo, porém, se cada pessoa é única, como é possível que todas e todos aprendam do mesmo jeito e ao mesmo tempo? Como pensar em aprendizagem para o domínio sem condições favoráveis para o trabalho como infraestrutura, políticas públicas para educação, tempo e formação continuada de professores/as? Como fazer isso com 30/40 alunos em 50 minutos de aula?


Quando se aumenta a variablidade na maneira de se ensinar certo assunto, diversificando e diferenciando as instruções e trazendo as avaliações como parte do processo diagnóstico, é possível diminuir as dificuldades individuais e diminuir também as lacunas do processo de aprendizagem.


Nem sempre os/as estudantes alcançam todos os níveis estabelecidos na Taxonomia de Bloom. Portanto, a avaliação formativa (combinada com a correção sistemática das dificuldades individuais) pode ser um diferencial em nossa prática docente. Sabemos da potência da aprendizagem entre pares e apoio entre eles. Por isso, recomendamos a aprendizagem para o domínio como método eficaz e mais aberto aos processos de personalização educacional.


O Khan Academy, é uma plataforma digital gratuita que pode ajudar o professor nesse percurso de aplicação da aprendizagem para o domínio. A plataforma utiliza recursos da Gamificação para trabalhar os conteúdos educacionais, tem acesso fácil e intuitivo. Nessa ferramenta, o/a docente pode recomendar atividades diferenciadas para cada estudante, fornecer feedback e trabalhar níveis que não foram alcançados em sua totalidade. Neste momento, existem na Khan Academy conteúdos de matemática, língua portuguesa e ciências, segundo as orientações da BNCC (2017).


Aplicar a aprendizagem para o domínio não é tarefa fácil: é preciso ter um amplo planejamento docente e formação continuada de professores/as. Só assim poderemos incluir esse tipo de aprendizagem em nosso cotidiano no intuito de diminuir as lacunas formativas de cada estudante.


ATENÇÃO:


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COMO CITAR ESTE ARTIGO:


ANASTÁCIO, Liliane Rezende. “Aprendizagem para o domínio: entenda e aplique esse conceito”, em Revista Ponte, v. 1, n. 5, jul. 2021. Disponível em: https://www.revistaponte.org/post/aprendizagem-para-o-dom%C3%ADnio




Liliane Rezende Anastácio é doutoranda em Educação pela Universidad Nacional de Rosario (Argentina), mestre em Matemática pela Universidade Federal de São João del-Rei, licenciada em Matemática (PUC Minas) e em pedagogia (Centro Universitário de Maringá). Atualmente é professora e chefe do Departamento de Ciências Exatas da Universidade Estadual de Minas Gerais. Escreve mensalmente na Ponte, onde assina a coluna Processos de aprendizagem e tecnologias digitais.




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Bibliografia:


BLOOM, Benjamin S. Taxonomia de Objetivos Educacionais: domínio cognitivo. Porto Alegre: Globo, 1972.


BRASIL. Ministério da Educação. Base nacional comum curricular: educação é a base. Brasília: MEC, 2017.