Brincar na favela: (re) criar a escola após a pandemia

A escola precisará ser (re)criada após a pandemia. Neste artigo, a professora e pesquisadora Adelaide de Souza apresenta possibilidades de recriar a educação na favela do Rio de Janeiro, tão assolada pela pandemia da COVID-19.





Adelaide Rezende de Souza


Em 2020, nós – viventes da atualidade – experimentamos algo inédito: diante da pandemia da Covid-19 surgiu a necessidade do isolamento social. O recolhimento no lar traduziu-se no cuidado e prevenção com a saúde individual e coletiva. Entretanto, num mundo tão desigual, mergulhado em uma imensa diversidade, acendeu-se um alerta: o isolamento, em muitos casos, representa um fator de desafio na luta diária pela sobrevivência financeira e pelo enfrentamento à violência doméstica, sobretudo quando há uma subjetividade estruturada na rua, em um espaço público que representa a extensão do território domiciliar e a imagem que o ser humano constrói de si próprio.


Em muitas favelas brasileiras, as ruas revelam-se como um lugar em que o humor e a brincadeira são estratégias para driblar a ausência do poder público na concretização de diversos direitos, bem como a convivência com conflitos bélicos constantes. Dessa maneira, é possível dizer que, mais do que um espaço, a favela é o lócus de uma experiência de lazer que altera a ordem do estabelecido e convoca ao bom humor como pulsão de vida, sinônimo de transcendência às fadigas do cotidiano. É na rua que muitas vezes, se aprende, desde a infância, a buscar equilíbrio psíquico. O jogo na favela, por exemplo, não é uma atividade isolada: há nela uma riqueza e uma complexidade de cultura em que se encontram tanto as marcas das concepções adultas quanto a forma como a criança se adapta a elas.


Ao circular pelos espaços públicos em áreas como esta, sente-se uma disputa espacial que se conflagra de muitas formas: as características da territorialidade remetem à ideia de força, que contribui na construção de alicerces que influenciam as relações infantis e a produção do campo lúdico. As crianças não costumam sair das comunidades, muitas têm a totalidade de suas famílias espalhadas entre as várias povoações do local. Um bom exemplo sobre este ponto é a capacidade que as crianças têm para se camuflarem durante as brincadeiras de pique-esconde. Aquelas que conhecem os detalhes do espaço público vestem roupas que facilitam a estratégia da camuflagem, o que facilita a vitória numa brincadeira desse gênero.


Também os adultos procuram, para si, formas de escapar da aspereza cotidiana, encontrando maneiras de distração. Constroem sua identidade interagindo com a imagem percebida de sua ambiência, a partir do que surgem formas distintas de brincar/de distração. Este é o caso dos bailes funks e dos cultos evangélicos, que, opostos em sua formatação e proposta, podem convergir em relação à intenção dos moradores.


Essas atividades são maneiras cultivadas para diminuir o impacto de um território segregado e com formas de entretenimento tão restritas. Para se alegrar, os moradores buscam se (re)inventar criando pontos de encontro para o fortalecimento dos laços de amizade com quem mais se identificam.


Com tal característica, a estreita relação nos espaços públicos torna-se um empecilho para se resguardarem do inimigo voraz e invisível, que é a Covid-19, dentro de suas habitações. Isso é agravado pelos enunciados do Governo Federal, contrários às orientações científicas da Organização Mundial de Saúde (OMS). A pandemia do Coronavírus descortinou uma realidade bastante cruel para segmentos sociais mais vulneráveis. Por sua vez, as crianças destes segmentos sociais têm grande dificuldades, pois, sem acesso às escolas, cheias de energia e com poucos recursos, observam seus familiares desesperados tentando sobreviver. Buscando o que fazer, brincam em lares apertados ou nas ruas, que sempre significaram mais um compartimento de suas moradias.


Estas palavras não trazem novidade ao dizer que a indiferença ao destino e às chacinas perpetradas contra as classes vulneráveis sempre foi comum. No entanto, o momento atual é mais grave. Em relação a educação, há o risco de que esteja sofrendo um desmonte para, a seguir, ser transformada em algo que amplie um abismo - já existente e profundo - entre aqueles que detêm o poder econômico e os mais pobres.


Afinal, desde o início do isolamento social, as decisões sobre a educação foram tomadas majoritariamente à revelia dos docentes, em nome de uma racionalidade tecnocrática sem ampla escuta e discussão das alternativas para a educação durante a pandemia (ZAIDAN e GALVÃO, 2020). O resultado foi quase um ano em que as escolas públicas estão fechadas e os estudantes com pouco acesso a qualquer atividade de ensino.


No que tange à implementação de propostas pedagógicas inovadoras, existe uma distância abissal entre as classes no Brasil. Esse fato, que já era preocupante antes da pandemia, pode se agravar se não forem encontradas possibilidades de inserção dos estudantes numa sociedade mais justa, mais humana e igualitária. Podemos ser solidários, assumindo nossa responsabilidade mútua, e indicar que ao se (pré)ocupar, cuidamos. E só podemos fazer isso agindo firmes, inteiros e juntos. Nesse sentido, é fundamental valorizarmos o agir consciente e em conjunto, “[...] pois somente a racionalidade técnica em estado bruto perde sentido; atuar junto exige ser respeitado em seus desejos e projetos de vida, que é o que de fato é capaz de colocar nossos corpos em movimento” (OLIVEIRA e VALLA, 2001, p. 87).


Está claro que não é possível alterar as relações sociais sem alterar as questões políticas e econômicas. No entanto, mais do que antes, é urgente a necessidade de dialogar e reconhecer os modos de vida na favela, evitando o aumento do abismo social relacionado à educação pública. É preciso, ainda, colaborar com o retorno às aulas e construir pontes entre necessidades emergentes e as instituições escolares brasileiras. Esse diálogo pode indicar uma forma até então inédita de aproximação igualitária em relação a uma comunidade historicamente negligenciada ou, caso não exista, corre-se o risco - eminente - de reafirmar o caráter excludente das já quase inexistentes relações entre as diversas camadas da sociedade. Essa escolha está posta como um desafio a ser deslindado.




Adelaide Rezende de Souza é psicóloga, pesquisadora do NIPIAC (Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Intercâmbio para a Infância e Adolescência Contemporâneas) da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da ONG Redes da Maré e pós-doutoranda do Instituto de Psicologia – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil. Adelaide é também formadora da Rede Consultoria, onde ministra o curso de Ludicidade, além de ser colunista mensal da Revista Ponte, com a coluna Educação, ludicidade e cidadania - interseções.




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Referências Bibliográficas:


OLIVEIRA, Rosely Magalhães de. e VALLA, Victor Vincent. As condições e as experiências de vida de grupos populares no Rio de Janeiro: repensando a mobilização popular no controle do dengue. Cad. Saúde Pública [online]. 2001, vol.17, suppl. [cited 2021-02-22], p. 77-S88. Available from: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2001000700016&lng=en&nrm=iso> Acesso em: 20 jun. 2020.

ZAIDAN, J. de M. e GALVÃO, A. C. Covid-19 e os abutres do setor educacional: a superexploração da força de trabalho escancarada. In: AUGUSTO, C. B. e SANTOS, R. D. dos. (OrgS.). Pandemias e Pandemônios no Brasil. (livro eletrônico) 1ed São Paulo: Tirant lo Blanch, 2020. Disponível em <http://www.unicap.br/catedradomhelder/wp-content/uploads/2020/05/Pandemias-e-pandemo%CC%82nio-no-Brasil.pdf> Acesso em: 20 mai. 2020.