Ciência, educação e literatura: um entre-lugar em construção


Entrevista com Ana Elisa Ribeiro



Há pouco mais de um par de décadas, venho então fazendo essa operação ambidestramente: com uma mão faço a investigação acadêmica que se relaciona à leitura, à escrita, ao livro, à formação leitora & escritora; com a outra mão, escrevo, escrevo bastante, com o mesmo prazer se for poesia ou se for artigo. E essa ambidestreza me dá uma sensação interessante de que estou falando de algo que conheço por dentro, em sua inteireza.

Ana Elisa Ribeiro



Fonte: Pexels




Na série Repensando a Educação, a Revista Ponte busca tecer reflexões sobre as fragilidades da escola enquanto instituição social, a sua inversão de valores e os processos de desumanização que as instituições de ensino formal produzem sob o pretexto de manter viva uma educação tradicional. Além disso, esta série busca problematizar também as relações assimétricas entre universidade e educação básica.


Nesta entrevista, subdividida em duas partes, conversamos com Ana Elisa Ribeiro, professora e pesquisadora que transita entre a ciência e a arte, conciliando os estudos linguísticos e a produção literária. Ana compartilha conosco suas reflexões sobre as possibilidades de comunicação entre a universidade e a escola, bem como sobre os aprendizados que as escolas vêm construindo a partir das demandas impostas pela pandemia.


Ana Elisa é professora titular do Departamento de Linguagem e Tecnologia do CEFET-MG, onde atua no ensino médio, no bacharelado em Letras e no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens. É doutora em Linguística Aplicada pela UFMG, licenciada e bacharel em Letras-Português pela mesma instituição. Entre seus livros mais recentes estão Escrever, Hoje e Multimodalidade, Textos e Tecnologias, ambos pela Parábola Editorial. É coordenadora do projeto de extensão Aula Aberta, que teve intensa atuação durante a pandemia, gerando o livro gratuito Tecnologias digitais e escola (Parábola, 2020).



RP: Ana, obrigado por aceitar fazer esta entrevista conosco. Sabemos que você é uma mulher que habita o entre-lugar da intelectualidade tradicional: você tem um pé no trabalho acadêmico e outro na literatura, com uma vasta produção em ambas as esferas. Conte-nos um pouco da sua história e, se possível, explique-nos o que levou você a juntar duas áreas aparentemente tão antagônicas: ciência e arte.



AER: O prazer é meu por ocupar este belo espaço na Revista Ponte. Obrigada pelo convite. Gosto dessa pergunta porque ela carrega uma premissa que, para mim, sempre foi falsa. É justamente essa de que ciência e arte andam separadas. Essa até pode ser uma maneira de ver, uma lógica predominante, mas acho que isso nos separa de muita coisa, nos omite muito. Para mim, o que junta claramente a atuação como linguista e como escritora de literatura são a leitura e a escrita como tecnologias, ferramentas, recursos, poderes. O acadêmico e o literário estão no mesmo pé, inclusive há acadêmicos no campo dos estudos literários, e não é o meu caso. Fiz um percurso na linguística, que sempre achei fascinante, sem tirar o pé da literatura, que veio antes em minha vida, como uma boa ambição da minha existência. Para ser escritora não é necessário ser uma intelectual da literatura. Aprendi isso cedo. Quando achamos o contrário, fazemos movimentos excludentes e preconceituosos também em direção à literatura. O que diríamos de Carolina Maria de Jesus, se esse pensamento não tivesse mudado ao longo das décadas? É claro que ele mudou para uma parcela das pessoas, não para todas, em especial quanto aos intelectuais. Bom, sempre achei que poderia estudar a leitura do ponto de vista científico (linguístico, cognitivo, sócio-histórico), sem deixá-la de lado, sem abandonar o trato direto e experimentador com ela, como se a leitura se tornasse uma espécie de cadáver para eu dissecar. Não, eu queria pôr as mãos em algo vivo, movente, mutante. E dei a sorte científica de estar viva e em formação universitária num momento histórico em que as tecnologias e a cultura escrita mudavam muito, a olhos vistos. Não perdi a oportunidade. Agarrei-me a esse assunto, que é mesmo uma questão vital para mim, e nunca mais deixei de investigar as possibilidades da escrita nesta virada de milênio. Já na graduação, nos anos 1990, juntei as práticas sociais de leitura às questões tecnológicas, que ainda não eram como são agora, mas já mostravam um potencial enorme de provocarem mudanças. Há pouco mais de um par de décadas, venho então fazendo essa operação ambidestramente: com uma mão faço a investigação acadêmica que se relaciona à leitura, à escrita, ao livro, à formação leitora & escritora; com a outra mão, escrevo, escrevo bastante, com o mesmo prazer se for poesia ou se for artigo. E essa ambidestreza me dá uma sensação interessante de que estou falando de algo que conheço por dentro, em sua inteireza. O José Saramago dizia que, para conhecermos algo, é preciso dar-lhe a volta toda. É o que tento fazer, mantendo a interação entre o que eu faço e o que eu penso, usando a reflexão como calço da prática e a prática como armação da reflexão. Não é legal se for assim?



RP: Estamos em um tempo de pandemia e esse evento global sacudiu o mundo inteiro, mas sobretudo o campo da educação. A escola, instituição problemática, apesar de indispensável, tem passado por revisões constantes, resultantes da crise sanitária que temos vivido. O quê, em sua opinião, a escola precisará aprender com essa pandemia?


Eu olho para o que estamos vivendo e penso: é agora! Mas em alguns segundos eu mesma me respondo com pessimismo. A escola antes da pandemia era impermeável, por exemplo, ao uso das tecnologias digitais. O que havia, além de escassíssimo, era maquiado. Nada mudava muito e tudo era sempre bem precário. A pandemia suspendeu tudo de um modo que nada mais suspenderia. E mais: suspendeu um modo tradicional de estar na escola, mas não suspendeu completamente nossas atividades. Veja: se estivéssemos vivendo outro tipo de calamidade, uma guerra, por exemplo, com bombardeios e perigo violento, não estaríamos fazendo nada, nem mesmo mediados por computadores conectados em rede. É bom lembrar que a internet tem origem em uma invenção de guerra, no século XX. Estaríamos em bunkers ou em abrigos, sem poder nem pensar em andar na rua, chegar a um prédio que concentrasse pessoas, correndo o risco de uma chacina. Bom, estamos vivendo uma calamidade de outra natureza. Como o vírus se fortalece justamente com nossos encontros pessoais, a saída foi tentar evitar que tais encontros acontecessem por tempo prolongado, em ambientes fechados. Uma escola hoje é uma ‘cultura’ de vírus, naquele sentido da biologia, das placas de Petri. Quando dizem que vamos retornar à escola e será preciso manter as janelonas escancaradas... eu acho bonito, mas rio de nervoso: nas minhas salas mal temos janelas! Neste tipo de calamidade que vivemos (vejamos aí o número de mortos assemelhado ao de uma guerra com bombas), muitos de nós pudemos experimentar a escola mediada por tecnologias que nos conectam a partir de nossas casas. Isso jamais havia sido experimentado nesta escala, desse jeito. E não vejo outra situação em que pudesse ser. Quando é que toparíamos, de bom grado, uma experiência como esta? Nunca, certamente. Então começamos, sem formação mesmo, e às vezes sem bons recursos, a nos movimentar, a repensar nossas aulas, a experimentar tempos, modos de fazer, recursos modais, etc. Um ano depois, não fazemos as mesmas coisas que fizemos em março de 2020, certamente. Aprendemos. E ainda estamos tentando e testando. Acho que fomos obrigados a dispor de recursos que não usávamos antes, claro, mas também, e principalmente, tivemos de mexer nos modos de fazer. Não é mudar apenas os ingredientes; é mudar a dinâmica da receita. Para dar um exemplo já clássico, notamos que não é viável ficar quatro horas em transmissão direta. Se isso já era difícil de suportar no espaço da sala de aula, no computador ficou pior. E mais: no computador o estudante tem mais controle das coisas, ele pode nos enganar mais. Foi preciso desapegar um pouco daquela ideia de que todos precisam estar vidrados no que eu, e apenas eu, estou dizendo diante deles. Com as câmeras fechadas, eles nos deram um drible. Ao mesmo tempo, não podemos exigir que eles estejam de câmera aberta.


É também uma questão de acesso, de assimetrias econômicas, de desigualdades nunca resolvidas. O jeito é repensar a aula para que ela faça sentido para mim e para eles e elas, num tempo que é medido em escala maior do que minutos. Acho que, quando tudo isto se amenizar, quando voltarmos aos prédios escolares, teremos entendido que não abandonamos a educação. Ela continuou firme em nossas vidas, para quem alcançava os recursos. Houve, no entanto, quem não tivesse condição alguma de manter o fio conectado da educação remota. Esses viveram e vivem como se estivessem na guerra com bombas.


É uma calamidade pela qual somos responsáveis, nesses persistentes trinta anos de reflexão inócua sobre tecnologias e educação. Inócua porque não foi possível fazer mais diante de tanta resistência e falta de investimento; não foi por falta de tentar conversar e propor experiências. Creio que a escola aprenderá muito; o problema é saber redesenhar as coisas de um jeito bom para depois. Nós nos vimos com outros olhos durante a pandemia, nos enxergamos, desnaturalizamos algumas coisas, estranhamos várias, é preciso jogar um bom jogo com isso.



RP: Ana, a propósito de toda essa discussão educacional que temos visto surgir, com um debate tão pandêmico quanto a própria COVID-19, gostaríamos de falar um pouco sobre as relações entre universidade e educação básica, dois espaços ainda tão afastados entre si. Para você, qual é a razão desse afastamento? O que tem contribuído para que universidade e escola sejam (ainda) duas realidades pouco comunicantes?


É difícil falar disso e não quero ser irresponsável. Vou pensar aqui nas coisas que eu senti e sinto ao longo da minha formação e da minha vida profissional como professora de três níveis de ensino: o básico, a graduação e a pós. Lembro bem de que, quando queríamos saber algo sobre a escola ou a sala de aula, durante a formação licenciada, recebíamos respostas desestimulantes por parte de alguns e algumas professores/as. “Isso você vê na FaE”, com certo ar de desprezo. FaE era a Faculdade de Educação, outra unidade da universidade, onde quem fazia licenciatura ia cursar as disciplinas de educação. Depois, uma coisa interessante pode nos provocar: em quase nenhuma carreira (incluindo, por exemplo, engenharia, direito, medicina) um professor precisa ter experiência prática ou profissional para atuar no curso em que ensina. Há carreiras em que isso é uma obrigação, num certo nível de especialização. Você não consegue ser determinado especialista se não tiver experiência de dois, três, quatro anos na área, no chão da fábrica. Mas você pode, numa boa, ser professor na engenharia sem nunca ter sido engenheiro; pode ser professor na engenharia sem sequer ser formado como professor; pode ser professora de futuros e futuras professores(as) da educação básica sem jamais ter sequer visitado uma escola pública. E tem de ser a pública, porque ela é que é a massa (e tem de ser). Aí você pode dizer, “mas tem aquele estágio supervisionado que todo licenciando é obrigado a fazer”. OK, não é disso que estou falando. Então nós temos um corpo de professores e professoras que são cientistas, como aqueles e aquelas que trabalham nos laboratórios ou nos museus; e temos uma turma que vai fazer carreira nas escolas de ensino básico. E esse pessoal não dialoga muito mais, a não ser quando algumas dessas segundas pessoas conseguem, a muito custo, ir fazer mestrado e doutorado, o que não é a regra neste nosso imenso país. Eu trabalho em uma instituição “estranha”. Hoje é até menos estranha porque houve um crescimento enorme da rede de Institutos Federais. Mas sinto que uma parte dos cientistas universitários nos olha com desconfiança, pouco apreço mesmo, como se estivéssemos uns degrauzinhos abaixo. Na minha carreira, damos aulas no ensino médio e nos outros níveis, se a instituição os tiver. Nem todas têm. Essas escolas costumam ter corpos docentes superqualificados. Fazem um trabalho excelente. E os professores, em certa proporção, mantêm suas vidas no ensino básico e na pesquisa. Sabe aquela coisa saramaguiana que eu disse sobre dar a volta toda? A gente sente isso um pouco. Tem coisa que ouço ou leio e me faz pensar: “isso é lindo, mas é inviável”. Eu sei que é porque não funcionaria no meu ensino médio, e olha que são turmas boas, estudantes que passaram por duros processos seletivos. Sei que estou numa situação favorável em relação a outras redes. Essa ponte certamente tinha de ser maior, melhor, mas não vai funcionar nunca se ela for assimétrica como é, em termos de poder, de simbologias, enquanto as pessoas não se sentirem colegas. Enquanto o professor do ensino básico se sentir distante, intimidado ou com preguiça mesmo do especialista acadêmico, vai faltar comunicação e sentido para as coisas. A experiência contrária também poderia ser legal: imagina o acadêmico tentando pôr as ideias boas dele ou dela em prática no ensino médio e sentindo na pele o sucesso e o fracasso? Sentindo a resistência enorme de gestores tacanhos ou a simples e avassaladora falta de verba e equipamentos? Não seria legal? Temos uma “metaprofissão”, não é isso? Ensinamos sobre o que somos. Bom, sabemos que essas assimetrias têm muitas dimensões. Eu não deixo de sentir isso por ser uma professora da educação básica e tecnológica que também pesquisa. Mas veja, vamos pensar no lado positivo: há pesquisadores e pesquisadoras de ponta que escrevem para um público mais amplo, que fazem essa escolha pelo diálogo com a escola básica. Há muitos e muitas. Mas tem de ser mesmo um diálogo honesto, ombro a ombro, senão a gente cai na mesma questão das assimetrias e pretensas superioridades.




Na próxima série desta entrevista, Ana Elisa Ribeiro apresenta informações e reflexões sobre a importância da divulgação científica entre os/as agentes da educação básica. É já na semana que vem! Não perca :)



FICHA TÉCNICA:

Entrevista original concedida à Revista Ponte

Edição: Pamella Pinheiro Barcelos e Paulo Geovane e Silva

Recebido em 19/04/2021.



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