Desaprender o nojo


Esta é a Palavra do editor , uma coluna quinzenal assinada por Paulo Geovane e Silva, editor-chefe da Revista Ponte.






Estamos no mês do Orgulho LGBTQIA+. Por um lado, é muito importante manter viva essa celebração, sobretudo porque, como sabemos, a memória coletiva costuma ser letal para as minorias - uma e outra vez é preciso lembrar que o amor não é uma pedra, um objeto imutável, uma verdade religiosa. Por outro lado, a necessidade de levantar uma bandeira em prol da liberdade (e contra a qual há quem ainda se insurja) é o sinal de uma patologia tácita nas entranhas do nosso quotidiano: ainda não aprendemos a conviver com a diferença, não conseguimos naturalizá-la.


Sempre que chega o mês de junho com o seu dia 28, a memória de Stonewall e as suas manifestações, lembro-me de mim ainda muito menino, na Escola Estadual do Parque Elizabeth, em Ibirité (MG), completamente baratinado por uma homossexualidade que, mesmo intuída, ainda me era incompreensível. Sentia-me perdido no opressor labirinto da opinião alheia e das piadas com o número 24 (o meu dia de nascimento e, desafortunadamente, o meu número na lista de chamada por 11 anos quase consecutivos). Não me explicavam o que se passava comigo. Ofensas verbais e físicas fizeram parte dessa experiência sufocante em que existir era um constrangimento. Mas sobrevivi.


Olhando para trás, constato: as dinâmicas de poder e as amarrações culturais que sustentam a escola me ensinaram o nojo de mim mesmo. Como muitos e muitas que estão lendo este editorial agora, fui educado para a autorrejeição, para a punição do Eu, a culpa, a repugnância ao meu corpo. O sistema educacional em que me encontrava contribuiu muito para que fosse criado em mim um duplo, uma ambiguidade, uma ambivalência cujos lados produziam entre si, ao mesmo tempo, o desejo e o seu respectivo recalcamento. O meu caso é, dentre muitos, o exemplar retrato de uma comunidade LGBTQIA+ vasta, uma multidão de infâncias perdidas e irrecuperáveis.


Anos depois, fui parar numa graduação em Letras. Logo depois fui para um mestrado e um doutorado em Literatura. Esses cursos e percursos formativos me fizeram voltar ao chão da sala de aula no ano de 2014. Ao retornar para a educação básica ocupando o privilegiado lugar de professor, percebi que pouco ou nada havia mudado: crianças ou jovens, os/as estudantes homossexuais, trans ou bissexuais continuavam a alimentar uma repugnância abissal por si mesmos/as, continuavam a aprender que a sua dignidade, a sua honra e o seu mérito estariam eternamente condicionados ao estigma da sexualidade dissidente. Muitos desses/as estudantes chegaram a acreditar que morrer seria o único remédio. Infelizmente um deles chegou a cumprir esse ato de fé.


No decorrer do meu percurso acadêmico, como professor e como estudante, conheci pessoas homo, bi e transexuais, conversei com elas/eles, ouvi os seus anseios. Fui aos poucos entendendo que o gênero ainda sustenta a engrenagem da opressão - com outra roupagem, com outros mecanismos, outros meios de operação discursiva -, embora existam hoje mais espaços para o debate, a visibilidade e a construção do respeito. E foi triste perceber que as instituições de ensino pelas quais passei foram (e ainda são) grandes protagonistas dessa arquitetura sexista que tolhe e pré-determina o futuro de muitas e muitos estudantes. Passei e ainda passo por muitas escolas para falar sobre a humanização dos processos educativos e todas as pessoas sempre me ouviram com admiração. Mas quando humanizar significa respeitar um homem que usa saia e pinta as unhas ou uma mulher transexual, a Educação Humanizada passa a ser objeto de abominação e críticas.


É-me difícil imaginar um sistema educacional em que a produção do conhecimento se separa da construção do respeito, da empatia, do sentido de alteridade e das liberdades individuais - eis o projeto de Escola "Sem Partido" que uma ala conservadora defende por aí. Entretanto, vale refrescar a nossa memória: uma escola que se diz laica e defende valores heteronormativos não é laica e muito menos apartidária.


Uma verdadeira escola é aquela que, articulando agentes educacionais e comunidade extra-escolar, permite desaprender o nojo de si mesmo/a, desaprender o nojo do Outro, do diferente; desaprender, por fim, a vontade de morrer. Uma verdadeira escola é aquela que não aceita trocar a liberdade pela neutralidade, como se estes conceitos fossem equivalentes.


Os meus anos dedicados à formação escolar - tempo em que vivi a dúvida, a hesitação e o medo - me forçaram a um doloroso caminho de autodeterminação, em que aprendi a transformar o motivo de repulsa e asco em símbolo de afirmação e libertação. Contudo, esta realidade não mudou. Por isso, as pessoas que constroem a escola precisam e devem se posicionar a favor da diversidade e do respeito, sobretudo no Brasil, país em que um crime de homofobia é registrado por dia.


A cada 28 de junho eu visito aquele menino tímido de escola pública, o menino com medo de ver a sexualidade"desmascarada" diante do mundo. Ao olhar para ele, nesse longínquo ontem, e ao olhar para o presente, constato que um futuro melhor é possível. Contudo, para que esse futuro se concretize no aqui/agora das subjetividades minoritárias, é preciso acender a memória, repetir incansavelmente a narrativa pela qual levantamos a bandeira do arco-íris, até que todas as pessoas entendam: o direito à liberdade é inalienável. Uma escola que não transversalize os processos de ensino e aprendizagem à construção da liberdade e do respeito à diversidade tende a ser partícipe na necrofilia de que é feito o discurso LGBTfóbico.


Neste dia 28 de junho de 2021, a Revista Ponte abomina toda e qualquer forma de opressão de gênero: repudiamos a performance machista e bossal do Presidente da República do Brasil, Jair Bolsonaro (sem partido), a Lei Anti-LGBT que acaba de ser sancionada na Hungria e a omissão da presidência portuguesa na União Europeia frente à postura do governo de Viktor Órban, primeiro-ministro húngaro e um dos responsáveis por lançar aquela comunidade LGBT+ ao abismo, à marginalidade, à morte.


O trabalho de divulgação científica promovido na Revista Ponte é e sempre será libertador, emancipatório, pró-diversidade de gênero e FEMINISTA, pois não há outra atitude possível num mundo em que a vida importa menos que o dinheiro, em que os fatos importam menos que as crenças individuais, em que uma sexualidade importa mais que as outras, em que o pensamento crítico é classificado como alienação e a alienação se afirma como pensamento crítico. Num mundo com tais idiossincrasias, não sermos feministas é perverso, é nefasto, é impossível.


Feliz Orgulho, com distanciamento social!





Paulo Geovane e Silva é doutorando em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra (Portugal), mestre em Estudos Literários e Culturais e especialista em estudos de gênero. Atua como Analista de Educação Humanizada, projeto que fundou em 2018, além de ser escritor e editor da Revista Ponte.




Este artigo foi importante para a sua reflexão? Então ajude a Revista Ponte a manter este projeto e conheça o nosso projeto de financiamento coletivo no Catarse.