Divulgação e Letramento Científico: para além dos muros da academia


Entrevista com Ana Elisa Ribeiro (parte II)


Valorizar o conhecimento e a partilha me parece algo que jamais deveríamos abandonar. Aprender a dialogar, participar de bons debates, abrir-se para novas ideias, tudo isso me parece fundamental para nossa vida.


Fonte: Pexels



Na série Repensando a Educação, a Revista Ponte busca tecer reflexões sobre as fragilidades da escola enquanto instituição social, a sua inversão de valores e os processos de desumanização que as instituições de ensino formal produzem sob o pretexto de manter viva uma educação tradicional. Além disso, esta série busca problematizar também as relações assimétricas entre universidade e educação básica.


Nesta segunda parte da entrevista com a professora e pesquisadora Ana Elisa Ribeiro, conversamos sobre divulgação e comunicação científica e sobre a popularização da ciência. Ana compartilha conosco suas reflexões a respeito do letramento científico, dos valores do mundo acadêmico e dos desafios enfrentados pelas educadoras e educadores diante da necessidade do ensino híbrido e/ou remoto.


Ana Elisa é professora titular do Departamento de Linguagem e Tecnologia do CEFET-MG, onde atua no ensino médio, no bacharelado em Letras e no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens. É doutora em Linguística Aplicada pela UFMG, licenciada e bacharel em Letras-Português pela mesma instituição. Entre seus livros mais recentes estão Escrever, Hoje e Multimodalidade, Textos e Tecnologias, ambos pela Parábola Editorial. É coordenadora do projeto de extensão Aula Aberta, que teve intensa atuação durante a pandemia, gerando o livro gratuito Tecnologias digitais e escola (Parábola, 2020).





RP: Há pessoas e instituições que tentam mitigar essa distância entre academia e escola. No quadro dessas iniciativas, fala-se muito de divulgação científica, comunicação científica e popularização da ciência. Quais são as diferenças entre esses três conceitos?


AER: A ponte entre universidade e escola básica pode ser feita por meio da comunicação, mas, é claro, não basta. Um detalhe: os professores de colégios de aplicação dentro de universidades estão num regime separado e nem sempre interagem com as faculdades e os departamentos acadêmicos de suas áreas. Não é simples fazer esse diálogo acontecer de maneira simétrica sequer dentro das instituições. Dessas expressões que você elenca, uma já pode ser destacada logo: a comunicação científica é tudo o que fazemos para divulgar os resultados, parciais ou finais, de uma investigação. Então o que fazemos em congressos ou em revistas acadêmicas são comunicações científicas. E geralmente elas são feitas entre os pares, embora alguém de fora desse círculo possa eventualmente ter acesso a esses produtos. A polêmica maior fica entre a divulgação científica e a popularização da ciência, que é quando a ciência sai do círculo do entre pares e quer alcançar a sociedade. Se pensarmos em camadas, podemos visualizar as revistas de divulgação científica como essas produzidas por agências de fomento ou pelas próprias instituições de ensino superior, a própria Revista Ponte e outras especializadas, como a Roseta, na Linguística, ou a Bem Legal, da área de Letras da UFRGS; na educação havia uma bem séria aqui, a Presença Pedagógica. Nelas, jornalistas mais ou menos especializados ou mesmo cientistas com esse senso mais social e uma escolha política quanto à escrita acessível dão tratos de linguagem e de “tradução” a estudos científicos, ajudando a divulgar e a fazer entender algo que, na origem, é técnico demais para um público muito amplo e/ou não especializado. Há coisas muito fundamentais e interessantes sendo feitas nas instituições de pesquisa (sejam elas universitárias ou não exatamente), mas que só serão compreendidas por mais pessoas, inclusive nessa sua importância, se forem explicadas e explicitadas, exemplificadas, etc. Isso se faz por meio da linguagem. A popularização da ciência pode ser entendida como algo ainda mais voltado ao público amplo, em publicações que chegam à ponta, às vezes em bancas de jornal e quiosques, mas que já se distanciam bastante da origem na linguagem e nos processos científicos. Há sempre um grande risco de essa “tradução” imprecisar, incorrigir, baratear coisas que são muito sérias. Os e as cientistas têm pânico de ver suas pesquisas e informações distorcidas, incorretas. É difícil mesmo. Mas não estou segura dessa diferença assim tão clara entre divulgação e popularização. O importante é que a sociedade soubesse o que fazem cientistas e professores/as universitários para que a ciência, a inovação e a tecnologia, em todas as áreas, estivessem socialmente protegidas dos desmandos de políticos e outros animais perversos. Se uma pessoa sabe que a vacina vem de dentro da universidade, é um passinho na direção de ela entender a importância daquela edificação estranha e meio intimidante na paisagem. Algo ali tem diretamente a ver com nossas vidas.



RP: A propósito da pergunta anterior, o que podemos entender por Letramento Científico (LC)? Há equívocos em torno desse conceito? Qual é a importância do LC para a educação básica?


AER: Entendo um pouco sobre letramentos, multiletramentos e alguns desses letramentos adjetivados, mas o científico não é exatamente minha especialidade. Vejo nele uma vizinhança com o letramento acadêmico, mas este tem uma relação mais direta com a linguagem mesmo, com processos de aprendizagem que dizem respeito a um domínio discursivo. Considerar o letramento científico é didático. É como se fizéssemos um recorte numa coisa muito ampla e amalgamada, mas escolhemos um aspecto dela para observar e estudar. Há debates em torno de todos os letramentos adjetivados. Eles se reproduziram tanto que andaram perdendo precisão, sentido, acuidade. O que podemos dizer que seja uma pessoa cientificamente letrada? Ela é capaz de distinguir o quê? Entender o quê? Perceber o quê? É claro que essas coisas se referirão à ciência, que também não é pouca coisa e nem banal de se definir. Mesmo assim, tenho certa simpatia por operar analiticamente nesses objetos delimitados (sob critérios como natureza tecnológica, âmbito, esfera de discurso, etc.). O letramento científico me parece tão amplo quanto outros, mas pode ser útil para a observação de determinados elementos ou processos, e não outros, mas sem perder pontos de contato com uma noção mais ampla de letramentos.



RP: A Formação Continuada de Professores tem sido uma tônica no mercado educacional: valoriza-se a professora ou o professor que busque formação constante e atualizada. Qual é a importância e o papel da divulgação (ou comunicação) científica nesse contexto?


AER: Isso é curioso porque não é fácil correr atrás de formação continuada, em especial para o professor e a professora da escola pública. Na privada também não é. Não existe, salvo honrosas exceções, a lógica de qualificação de empresa, naquele esquema de investir no funcionário. A existência do Profletras, por exemplo, ou dos mestrados profissionais em qualquer área, públicos, gratuitos e de qualidade, foi um alento nesse sentido. Muitos e muitas colegas tornaram-se mestres nessas oportunidades. Mas não é simples, não é sem esforço e sacrifício. É claro que um/a professor/a tinha de ter acesso à formação constante. Isso devia ser uma premissa dessa profissão. Mas tem de ser com qualidade, com condição decente, com valorização imediata, com efeitos evidentes, além, é claro, da importância que isso tem para a escola e o grupo que está junto nessa escola. Nunca vi uma pessoa andar para trás depois de fazer pós-graduação stricto sensu. É uma experiência muito marcante na vida e na carreira de alguém. Mesmo que seja doloroso, em alguns casos, costuma ser positivo. Os/as professores/as precisam ficar sabendo dessas ofertas, precisam se aproximar das formações, precisam sentir que sua experiência conta, que contribui. Talvez a comunicação científica circule em âmbitos mais distantes disso, mas o professor ou a professora que forem se qualificar, se pós-graduar, provavelmente terão experiências científicas relevantes. Isso para falar em cursos de mestrado e doutorado. Pensando em formações mais curtas, é claro que é importante manter-se em qualificação. São infinitos os cursos curtos que ajudam muito a atualizar leituras e a partilhar ideias com colegas cujas experiências são diversas. Já a divulgação é outra história. Tanto pode ser resultado desses estudos quanto pode ajudar um/a profissional a tomar a decisão de se qualificar.



RP: Para você, que valores o mundo acadêmico precisa ultrapassar e que valores precisa manter?


AER: Valorizar o conhecimento e a partilha me parece algo que jamais deveríamos abandonar. Aprender a dialogar, participar de bons debates, abrir-se para novas ideias, tudo isso me parece fundamental para nossa vida. São valores cultivados na vida acadêmica. Já algum ranço elitista ou distintivo (no mau sentido) deveria ficar para trás. É claro que não é fácil e varia entre as áreas, menos ou mais conservadoras, elitistas, mantenedoras do “de sempre” e dos mesmos, mas acho que já houve certo movimento nisso, em direção à diversidade e à abertura.



RP: Você indica alguma bibliografia para quem queira aprender mais sobre Letramento Científico?


Olha, me arrisco a mencionar uma bibliografia mais genérica, isto é, sobre letramentos e multiletramentos. A adjetivação pode ser melhor entendida ou aproveitada depois que a gente entende de onde isso deriva. Vou citar alguns nomes pelos quais é fundamental passar, se alguém quiser saber como o letramento vem sendo discutido no Brasil: Magda Soares, Angela Kleiman, Leda Tfouni, para as questões mais gerais; Roxane Rojo, para uma visão dos multiletramentos, sendo fundamental ler diretamente, no original, o manifesto da Pedagogia dos Multiletramentos, publicado por Harvard em 1996 e assinado por um coletivo de autores e autoras de língua inglesa; Carla Coscarelli, por exemplo, para tratar do letramento digital. E vou parar por aqui e deixar as adjetivações para pesquisadores e pesquisadoras curiosos/as.



RP: E, por fim, que mensagem você deixa às educadoras e educadores que têm passado pelas dores e dissabores do ensino híbrido e/ou remoto?


Espero que não sejam apenas dores e dissabores! Tenho entendido como frustrações, ansiedades e aquela sensação de angústia que sentimos quando não sabemos nada e iniciamos um processo de aprendizagem. Eu me lembro de situações na vida em que eu sofria com novidades, mas logo olhava ao redor e me tranquilizava. Toda vez que eu começava um estágio ou entrava num emprego novo, eu sentia um desconforto enorme porque não entendia nada, não sabia me deslocar direito no prédio, não estava incluída nos grupinhos de pessoas rindo pelos cantos, errava o horário do café, não sabia onde guardar equipamentos, não sabia a quem recorrer. Mas eu olhava ao redor e pensava que aquelas pessoas todas que estavam ali à vontade, rindo entre si, sentadas como se estivessem no sofá de casa, que deslizavam pelos corredores na maior familiaridade... um dia haviam sido novatas como eu. Então minha aflição virava uma espécie de serenidade: preciso ter paciência para aprender. Vou aprender e daqui a pouco serei eu ali. E era isso que acontecia. Em algumas semanas ou em alguns meses, eu já sabia sobre coisas, pessoas, chefes, espaços e podia me deslocar como parte daquele ambiente. Foi o que aconteceu na pandemia. No ensino remoto, houve um primeiro momento, quando chegamos todos e todas novatos em espaços digitais desconhecidos, e depois, um outro momento foi se desenhando, à medida que aprendemos a nos deslocar, a trocar, a partilhar, a fazer e refazer. Hoje as pessoas estão mais safas, menos ansiosas, nesse sentido. É claro que estamos preocupados/as com possíveis perdas nesta experiência mediada por redes digitais, mas também houve ganhos, coisas que vamos percebendo aos poucos e que vamos anotando em nossa listinha mental: “isso eu não queria que acabasse, aquilo poderia mudar para sempre”, etc. Isso tudo incomoda bastante. Mas nos afeta também em termos de aprendizado e de algo que vamos ganhar. Há coisas que só saberemos muito depois. Há vivências que não conseguimos avaliar a quente, estando dentro. Tive angústias e ansiedades, mas também tive pequenas alegrias, alguns prazeres e muita coragem durante o ensino remoto. Me senti convocada a fazer alguma coisa. E fiz. Espero que depois possamos partilhar isso e construir uma educação melhor para todos e todas.



FICHA TÉCNICA:


Entrevista original concedida à Revista Ponte

Edição: Pamella Pinheiro Barcelos e Paulo Geovane e Silva

Recebido em 19/04/2021.


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