Dor, sexualidade infantil e educação – Parte I

Neste artigo, o psicanalista e pesquisador Samuel Cruz introduz uma série de textos que tratam da dor emocional, da sexualidade e de sua relação com o desenvolvimento infantil e com a educação. Partindo do domínio anatômico para o biopsicossocial, o autor revisita a teoria freudiana, indicando que muitas dores emocionais estão relacionadas às fases mais primitivas da formação psíquica do sujeito. A continuação seguirá nesta seção da Revista Ponte.


Fonte: Pexels


Quero aqui iniciar uma série. Nela, pretendo falar da dor e, fundamentalmente, da dor emocional. O que é? Como e quando é produzida? Como a família, a educação formal e a escola desempenham papel fundamental na identificação da dor?


Certamente, abordar a dor aqui não é tarefa fácil, porque este não é um espaço para discussões anatômicas ou fisiológicas, mas todos compreendem o sentido e as implicações da palavra dor: dói porque há algo errado.


A dor física é uma resposta a uma lesão nos tecidos. Na Fisiologia, aprendemos que a dor pode ser provocada por estímulos químicos, mecânicos ou térmicos e que há receptores, terminações nervosas, que estão dispersos na pele e em tecidos. A dor é sobretudo um sinal que exige resposta e nosso sistema nervoso central é capaz de identificar com precisão, por exemplo, uma dor pontual no corpo.


Nosso sistema nervoso, inteligente como é, também possui um sistema de analgesia capaz de lidar com a dor, mas nem sempre se consegue aplacá-la sem ajuda externa, sem um opioide, por exemplo. Em geral, para todas as dores há um analgésico capaz de, ao menos, reduzi-la. Um problema surge quando tratamos de uma dor específica: a dor emocional. Somos capazes de dizer onde dói quando estamos angustiados?


Para quem responder que a dor é na boca do estômago, duas questões importantes: não há boca no estômago e, muito provavelmente, não há qualquer lesão visceral. Nem cardíaca e, pasmem, nem cerebral. Onde está o órgão da emoção? Não há tal órgão. Sim, o córtex frontal e a amígdala (não a da garganta, mas aquela que se localiza no cérebro) podem ser apontados como as partes do sistema nervoso relacionadas à emoção e também podem destacar os papéis do próprio estômago, do intestino, do fígado. Até o coração pode partir-se e a cardiomiopatia do estresse (a tal Síndrome do Coração Partido) remete-nos à relação entre emoções, bioquímica humana e dor (falaremos um pouco sobre ela no próximo artigo desta série), mas é importante dizer que, para além da dor emocional, sabemos que as emoções podem provocar lesões.


Muitas de nossas dores emocionais relacionam-se a fases muito primitivas de nossa formação psíquica. Por esta razão, a relação entre crianças, seus pais, amigos e outros familiares é muito importante. Afinal, o ser humano é biopsicossocial, ou seja, é atravessado por mecanismos biológicos, psíquicos e sociais, sendo aqui o social referente ao meio em que vive (valores, história, leis etc). No entanto, a despeito da história e da sociedade em que vivemos, todos estamos sujeitos à dinâmica de desenvolvimento psicossexual e cada um de nós a experimenta de determinado modo.

Na dinâmica de desenvolvimento psicossexual, patologias são geradas, e uma patologia se expressa em sintomas, em dores que alguém experimenta em determinada fase da vida, porque algo parece estar desequilibrado (e está).


Agressividade, não aceitação do outro como um diferente mas semelhante, raiva, ódio, amor desequilibrado, dificuldade em se relacionar com os outros em sociedade, fobias, incapacidade de se expressar ou excesso de expressão, egoísmo acentuado, frieza extrema, distúrbios alimentares, acumulação de coisas, desorganização, excesso de gastos e desequilíbrio financeiro, violência e tantos outros são somente alguns dos sintomas que mostram potenciais patologias e que estão, acreditem, muito possivelmente, relacionados ao desenvolvimento infantil.


Uma vez que já tratamos do que é a dor física (ainda que superficialmente) e que já determinamos que a dor emocional não está em um órgão (embora possa estar refletida em um), comecemos a falar do desenvolvimento infantil. Para isto, vamos aqui usar Freud como referência.


É amplamente conhecida a ideia das fases do desenvolvimento que nos trouxe Freud: a fase oral, nos dois primeiros anos de vida, quando a criança é amamentada e foca na oralidade (é saciada pelo que ingere e tem prazer em sugar); a fase anal, quando há uma concentração da criança na região anal (brinca com fezes, entende que ela produz as fezes e é capaz, inclusive, de presentear os outros com suas fezes. Sim, isso é um presente, pois é algo que ela fez). Na fase anal, a criança também aprende (ou deveria aprender) a se separar das fezes. É uma fase que dura uns três anos, embora seja sempre difícil estabelecer claramente o limite de cada fase em anos (lembremos que o ser é biopsicossocial e o social, aqui, desempenha papel fundamental). Teremos, posteriormente, a fase fálica (até os 5, 6 anos), quando o foco passa a ser o órgão genital e, principalmente, quando se dá o Complexo de Édipo. Amor pela mãe (pai), sentimentos de ciúmes, inveja e agressividade são sentidos nesta fase. Por fim, vem a latência, período em que a expressão de desejos acaba por ser mais assexuada, expressa na relação com os amigos, nos esportes, nos estudos. Aí começa a puberdade (fase genital) e, finalmente, a vida adulta.


O que isso tem a ver com as dores? É o que veremos no próximo artigo, mas, de antemão, vale destacar que o tema sexualidade é cheio de tabus e é importante afirmar aqui que sexualidade não equivale a sexo (em qualquer acepção que se dê ao termo), embora o sexo seja parte da sexualidade. Não se trata, ainda, de uma discussão que pretende incentivar qualquer prática sexual e, por fim, é importante dizer que a sexualidade está ligada ao prazer, ao conhecimento de si e, diga-se de passagem, prazer não é uma palavra feia, que deva ser proibida ou que esteja ligada exclusivamente ao sexo.


O ser humano segue (ou deveria seguir) o princípio do prazer, dada uma realidade de contorno e a sexualidade presente na infância. Sim, existe sexualidade infantil. Não, não se trata de sexo na infância, mas de conhecer o desenvolvimento infantil e as dores da vida. Os educadores e as educadoras precisam compreender esse fenômeno e este será o objetivo desta coluna.



COMO CITAR ESTE ARTIGO:


CRUZ, Samuel “Dor, sexualidade infantil e educação – Parte I”, em Revista Ponte, v. 1, n. 7, dez. 2021. Disponível em: https://www.revistaponte.org/post/dor-sexualidade-infantil-educa%C3%A7%C3%A3o-parte-i




Samuel Cruz é economista, advogado e psicanalista clínico, com doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestrado pela PUC-Rio. Atualmente é pós-doutorando em Psicologia Social pela Universidade John Kennedy de Buenos Aires. Atua como analista socioeconômico do IBGE, como professor-tutor da Universidade Castelo Branco e na pós-graduação de diversas instituições de ensino. Escreve mensalmente na Ponte, onde assina a coluna Sexualidade e educação.




 

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Referências:


FREUD, S. Um caso de histeria, três ensaios sobre a sexualidade e outros trabalhos. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 2008.


GUYTON, A.; HALL, J.E. Tratado de Fisiologia Médica. 12ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011.