E o sistema ruiu...

Neste artigo, a professora e tradutora Isabella Fortunato demonstra o anacronismo da educação brasileira e a urgência de propor uma escola mais adaptada às tecnologias digitais de comunicação e mais atenta às habilidades humanas que o século XXI exigirá e as quais devem ser desenvolvidas também nos contextos de educação formal.



Fonte: Wix


O sistema educacional brasileiro já estava falido muito antes da pandemia. E precisava se reinventar, mas ficava adiando, pois mudar dói. Trata-se de um sistema claramente baseado nos quartéis militares, nas hierarquias do exército, com a pseudo-intenção de democratizar o conhecimento.


A pandemia veio para jogar forçadamente o ensino formal tradicional na Era Digital. O resto do mundo já estava lá fazia tempo, mas o ensino, tradicional, continuava - e continua - tentando se manter nos parâmetros do século XVIII. Tanto é que os professores tentaram levar as aulas que davam no método presencial para a frente das câmeras. Não funcionou. Temos, agora, milhões de crianças e adolescentes com 2 anos de atraso em matéria de ensino; pais desesperados, pois viraram, de uma só vez, pais e professores. Isso não estava nos planos quando planejavam ter filhos.


Não adianta transpor um sistema falido para um canal completamente inovador e que já tinha conquistado as crianças, já que nascem com a inteligência nos dedos das mãos. A internet e as inovações tecnológicas que temos hoje não merecem ser usadas para algo tão inútil como uma aula, em que o professor, protagonista e detentor do conhecimento, fica em cima do palco, e os alunos, passivos e silenciados, escutam e acham que aprendem. Se todos sabem que a melhor forma de aprender é ensinando, o único que está aprendendo algo, ali, naquele ambiente, é o professor.


Parece que, finalmente, agora, o papel de cada um está bem definido. Quem ensina tem que aprender e quem educa tem que aprender a educar, a cuidar. O caos é para que possamos voltar a um normal mais aceitável que o anterior.


Como deveria ser, então? Pois não adianta criticar sem, pelo menos, tentar propor uma solução viável. Estamos na Idade da Gamificação, sendo que, desde sempre, o nosso cérebro de homo sapiens gosta de uma recompensa. Nesse sentido, a digitalização do ensino precisa ter como base a diversão e a recompensa. Há novas habilidades que precisam ser fomentadas e outras que não supõem tanta necessidade de estímulo - essa obediência cega, o respeito pela obrigação e não pela admiração, pela inspiração e pelo exemplo, de nada adiantam, em nada acrescentam.


Habilidades como design, programação, robótica, inteligência artificial, as artes, os relacionamentos sociais, o trabalho em equipe, a igualdade entre todos/as. Tudo isso, a essa altura, tem que ser o foco. Já está na hora de valorizarmos, em cada aluno/a, as suas melhores qualidades e não apontarmos os seus erros e suas fraquezas. Falamos em aceitação, em autoestima, em autorresponsabilidade. Eles devem aprender a viver e não a teorizar.


Nós, professores e professoras, precisamos estudar e nos esforçar o dobro, o triplo. Eu sei que sequer ganhamos para isso. Mas, como missão de vida, devemos isso ao mundo. Viemos professores em uma época de transição para inovar e nos inovarmos, aprendermos ensinando, amar sem o beijo, sem o toque. O mesmo serve para os pais, que deveriam estudar sobre educação infantil e utilizar as novas descobertas da psicologia, por exemplo, para educar, mas também para não surtar.





Isabella Fortunato é tradutora, educadora digital e formadora no setor empresarial. Doutorou-se em Letras pela Universidade de Coimbra e deixou a carreira acadêmica para trabalhar com formação de líderes, tradução e empreendedorismo. Escreve mensalmente na Ponte, onde assina a coluna Tecnologias de Inovação Educacional.




Este artigo foi importante para a sua reflexão? Então apoie a Revista Ponte e ajude a manter o nosso trabalho de pé. Conheça o nosso projeto de financiamento coletivo no Catarse.


Acesse revistaponte.org