Educação Humanizada: um novo paradigma de consciência social para o Brasil (e não só)


Por Paulo Geovane e Silva[1]


Texto publicado originalmente no jornal Le Monde Diplomatique Brasil e devidamente autorizado pelo autor.


Humanizar a educação supõe contemplar, de múltiplas maneiras, tudo o que compõe o complexo/incompleto/contraditório ser humano; significa educar o nosso olhar para a diversidade



Tal como hoje se organiza, a escola é um espaço abissal e extremamente desumanizador. Esta afirmação não vai contra a escola enquanto projeto social, tampouco menospreza as suas funções intelectuais, críticas, políticas, culturais e profissionais. Trata-se aqui da escola enquanto máquina de fazer estatística, enquanto um sistema intencionalmente repleto de mecanismos e artifícios de opressão contra aquilo que o ser humano tem de mais singular: ser humano.



Comecemos pela educação pública: marcada pela pobreza econômica, por carências de várias ordens, pela infraestrutura deficitária, por professoras e professores desmotivados e suscetíveis a todo o tipo de violência, as instituições municipais, estaduais e federais, mas sobretudo as duas primeiras, estão assoladas pelo descaso de um governo que, deixando a população mais pobre à mercê das próprias dificuldades, faz da educação pública uma máquina de replicar pobreza (no mais amplo sentido da palavra).


Para além de toda a incoerência político-organizacional por trás do ensino público brasileiro, estamos falando de um sistema educacional tão limitado, tão escasso dos pontos de vista econômico, social e formativo, que essas escolas proporcionam um percurso educacional extremamente desumanizador, o qual, per se, pode despertar em alguns dos seus agentes o ímpeto de caos (às vezes por militância, às vezes por impertinência), instaurando o desassossego, desperdiçando saberes locais, anulando identidades marcadas pela marginalização classista e construindo, portanto, o próprio demérito da instituição e do sistema. De qualquer forma, vale frisar: aqui a crítica é contra o sistema, e não contra as pessoas (e subjetividades) que o compõem. Nesse sentido, o sistema é como um vício institucional que assola a consequência máxima da educação: a pessoa humana.


Em Sobre a violência (1970), Hannah Arendt já denunciava esse problema da violência institucional, gerada por uma qualquer complexa engrenagem organizacional e, por isso, impossível de imputar especificamente a um indivíduo ou a um grupo claramente determinado: como referiu a filósofa, era (e ainda é) a opressão por parte de ninguém, a mais cruel de todas as formas de dominação e violência.


Muitos dizem que se trata de um projeto intencional de deseducação para a manutenção do desconhecimento, da marginalização e da consequente passividade diante dos bonzinhos de terno-e-gravata. Como o projeto parece durar séculos, não podemos menosprezar o fato de que a educação pública brasileira, tal como hoje se apresenta, seja um plano de controle e desmonte intelectual muito bem pensado por certas classes do governo.


Falemos agora da escola (ou da educação) particular: o que há de desumanizador em instituições com excelente infraestrutura, com material didático de qualidade, professores altamente qualificados e projetos pedagógicos de gerar inveja – ou fúria – em muitos freireanos? Simples: o excesso de exigência por sucesso, a supervalorização dos “cursos nobres”, a subvalorização da carreira de professor, a universidade como modelo monolítico para o “sucesso”, o fetichismo capitalista, uma certa perversidade neoliberal na tessitura do percurso formativo, a saga por definir quem é mais rico, a infinita necessidade de autoafirmação, os múltiplos tipos de violência entre alunos x alunos e alunos x professores, a meritocracia e os seus mecanismos caducos, a falta de consciência de classe, a permissividade escolar diante da tirania dos pais-clientes, estes são apenas alguns aspectos da desumanização no ensino privado brasileiro.


Obviamente, e ainda que tratemos de educação em duas esferas econômicas completamente diferentes do ponto de vista material, entre estes dois espaços existem algumas semelhanças, aproximações e padrões de desumanização: o desrespeito, a violência, a falácia, a desmotivação, a depressão, o cinismo, a tirania e o pior: a gigantesca desvalorização do pensar, da educação, da intelectualidade, da formação sociocultural… Esses padrões estão em qualquer escola de qualquer classe – eles apenas mudam de roupa para atender a demandas locais, classistas, econômicas, mas, na essência, comungam paradigmas de atrocidade e injustiça social.


Por isso, é preciso, primeiramente, admitir que todos os atores e atrizes da educação, em muitos graus e formas, sofrem um profundo desamparo dentro dos respectivos lugares e funções que ocupam no corpo da educação formal brasileira. É urgente – urgente! – fazer da educação um processo mais humano, menos sufocante, menos vertiginoso, menos epistemicida, como diria o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. É preciso lançar esforços para uma revolução humana da educação, para um processo mais participativo, mais colaborativo e menos competitivo – um paradigma de desenvolvimento profissional que, em tempos de Covid-19, mostrou-se totalmente ineficiente. É preciso, portanto, promover uma Educação Humanizada, pois é pelo fator humano (em suas generalidades ou singularidades) que a educação conseguirá reivindicar o seu legado e a sua importância na consciência coletiva, tão maltratada pela desinformação, pelas polarizações políticas e por uma espécie de niilismo genocida: a redução (em massa) do Outro até a sua morte física, simbólica, histórica.


Humanizar a educação supõe contemplar, de múltiplas maneiras, tudo o que compõe o complexo/incompleto/contraditório ser humano; significa educar o nosso olhar para a diversidade, para o todo e a parte que compõem o planeta Terra, para a identidade, a alteridade, a empatia, o respeito, o diálogo – inclusive entre partes que não se suportam, como infelizmente ainda vemos entre muitos dos segmentos políticos que conduzem os debates sociais no Brasil: há, nesses meios, quem ainda queira fazer política sem dialogar com o Outro, o que acaba por, às vezes, cair na doutrinação, a grande antípoda do universo político que almejamos agora.


Humanizar a educação é enxergar o Outro não como o diferente, mas, antes, como parte integrante do Eu, donde surgirá um amor muito mais transformador: aquele amor que percebe na diferença uma forma de conviver e amar, que consegue captar nos distintos pontos de vista a totalidade de que é feita a vida humana, que abandona as dicotomias e abraça a complexidade das razões, dos saberes, das ideias, das formas de ser e estar, permitindo, assim, que todas as expressões da existência alcancem o que lhes é próprio: o direito de existir.


No campo pragmático, a abstração destas propostas supõe um leque de articulações sociais, legais e operacionais de ordem vária, mas não anula a urgência da reflexão: a educação deve ser humanizada já, sobretudo em tempos de inegável desmonte não apenas das instituições, mas também – e muito mais – da potência intelectual que, presente em cada ser humano, poder-se-á desdobrar-se em possibilidades de revolução, de luta e transformação social, o que, nos dias de hoje, não ocorre pelos claros interesses do Estado em manter as mentalidades no limbo do pseudoconhecimento e dos algoritmos, na paranoia da pós-verdade e nos labirintos hipertextuais das redes e seus debates, virtuais tanto na forma quanto no conteúdo.


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[1] Paulo Geovane e Silva é doutorando em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra (Portugal), pesquisador do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, escritor e membro do conselho editorial da Revista Ponte.