Ensinar com poesia

Por Lucas Bernardo de Souza Ambrósio[1]




Levando em consideração que a leitura, sobretudo a literária, é uma forma de existir no mundo, o que se conclui é que, sem o contato com a arte poética, perdemos um pouco mais de humanidade e de sensibilidade.


Foto: Canva.

A poesia, e a literatura de modo geral, tem a capacidade de produzir nos estudantes (e na sociedade) mais do que o pensamento crítico e o conhecimento cultural, visto que um dos efeitos principais, e muitas vezes esquecido, da arte poética é o desenvolvimento da sensibilidade no leitor. Baseando-se nesse pensamento, que Antonio Candido (1995) defendeu no ensaio “O direito à literatura”, o efeito humanizador da literatura consiste, na verdade, no fato de que o acesso a essa arte supõe não apenas o direito aos livros, mas também o direito à cidadania e à humanidade, à sensibilidade e ao pensamento estético. É também com base nessa concepção que Rildo Cosson (2014), em “Letramento literário”, assevera que esse letramento extrapola o nível da fruição literária, levando o leitor a afirmar e retificar valores culturais, conduzindo-o a uma elaboração e expansão de sentidos da obra literária, a partir de seu posicionamento dentro dela.


Considerando isso, é importante que todo educador tenha em mente a importância da poesia nas salas de aula, conforme demonstrou o estudo realizado por Elaine Aparecida de Oliveira Assunção, cujo título é “Poesia e música como aprimoramento da leitura no Ensino Fundamental”. Nesse estudo, a autora discute a importância da poesia, quando associada à música, no desenvolvimento, enquanto leitores, dos estudantes do oitavo ano de duas escolas públicas municipais, uma em Belo Horizonte e outra em Contagem (ambas no estado de Minas Gerais – Brasil).



Um dos aspectos dessa pesquisa que constitui um dos maiores desafios dos professores de literatura da Educação Básica é a tentativa de trabalhar a poesia em sua integralidade, considerando desde seus aspectos sonoros até suas propriedades morfossintáticas, semânticas, textuais, estéticas e socioculturais. Além disso, esse estudo aponta a relação positiva entre a MPB e a poesia, quando usadas de modo complementar no intuito de gerar maior interesse nos estudantes e, também, com o objetivo de fazê-los perceber a associação poema-música-corpo ou som-sonoridade-corpo. A partir dessa análise, Assunção (2018) conclui, mediante os dados coletados por meio de um questionário respondido pelos discentes no início e ao fim da pesquisa, que houve uma melhora significativa no desempenho dos estudantes quanto à leitura.


Portanto, a leitura de poesia no contexto escolar é imprescindível não apenas pela fruição do texto poético, por parte dos estudantes, como um fim em si, mas também pelos seus efeitos positivos no desenvolvimento da leitura, de modo que é possível perceber nitidamente que há uma diferença considerável entre o estudante que não lê poesia, mas adquire esse hábito posteriormente. Levando em consideração que a leitura, sobretudo a literária, é uma forma de existir no mundo, o que se conclui é que, sem o contato com a arte poética, perdemos um pouco mais de humanidade e de sensibilidade.



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Bibliografia:


ASSUNÇÃO, Elaine Aparecida de Oliveira. Poesia e música como aprimoramento da leitura no Ensino Fundamental. 2018. 310 f. Dissertação (Mestrado em Linguagens e Letramentos) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. 2018. Disponível em: <https://profletras.letras.ufmg.br/arquivos/POESIA%20E%20M%C3%9ASICA%20COMO%20APRIMORAMENTO%20DA%20LEITURA%20NO%20ENSINO%20FUNDAMENTAL.pdf>. Acesso em: 14 maio 2020.

CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: CANDIDO, Antonio. Vários escritos. 3. ed. São Paulo: Duas Cidades, 1995.

COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2014.




[1] Professor de Língua Portuguesa na Educação Básica (Ensino Fundamental II e Ensino Médio) e revisor de textos no curso preparatório Meds.