Entre os dentes: corpo e escrita de Carolina Maria de Jesus

Neste artigo, a professora e pesquisadora Tatiane Santos reflete sobre as vivências da escritora Carolina Maria de Jesus e como tais experiências influenciaram a sua escrita, além de explorar a relação entre a literatura e o corpo de quem escreve.

Fonte: Arquivo Nacional


Perceber-se escritor é um processo que ocorre de diferentes maneiras, segundo o contexto socio-histórico e as diversas etapas que permeiam o processo de escrita: leituras, releituras, reescritas, publicação (ou não) do texto, publicações sobre o texto, dentre muitas outras que têm um efeito sobre o corpo de quem se dedica a esta atividade. A escritora Carolina Maria de Jesus, mineira de Sacramento e que viveu grande parte de sua vida na cidade de São Paulo, traz, em muitos de seus textos, sua relação com os fatos do seu cotidiano e sua escrita. Ao longo de seus relatos, podemos notar as mudanças em seu corpo, em seu entorno, causadas por sua relação constante com as atividades relacionadas à sua produção literária.


No texto Prólogo 2 que compõe o livro O meu sonho é escrever (2019), organizado por Rafaella Fernandez, a escritora nos leva por uma experiência sensorial da relação entre corpo e escrita, da formação do escritor e das mudanças que esta atividade causa em quem escreve. Ela recupera suas memórias para contar ao leitor sobre o instante em que se descobriu escritora. Estas sensações dividem-se em etapas que envolvem momentos de maior ou menor agitação, dependendo da percepção do espaço ao seu redor e da relação com o que Carolina chama de pensamento poético, que vai tomando diferentes formas em seu corpo, de acordo com a fase em que vive.


O relato deste percurso começa no período de alfabetização: a resistência inicial a ler e escrever, por ser uma criança muito inquieta, e a rapidez com que esse processo se concretiza, após a atividade ser relacionada a castigos físicos e tortura psicológica, como podemos observar na fala da professora: “Carolina, este homem é o espetor. E a criança que não aprender a ler até o fim do ano ele espeta no garfo. No fim do ano ele vem aqui e vou apresentar-te a ele” (JESUS, 2019, p. 19). A menina curiosa, necessitando de motivação positiva, encontra o oposto e precisa acelerar o processo, guiada pelo medo, para não sofrer as sansões físicas. Nesta etapa em que se alfabetiza, seu corpo é marcado por ameaças mediadas pelas cobranças em casa e na escola.


Após a alfabetização, chega uma fase melhor, com a descoberta dos livros, as escritas e as discussões com a professora: “Fiquei vaidosa quando percebi que era admirada” (JESUS, 2019, p. 20). Sua rotina escolar, no entanto, é interrompida, pois os seus pais necessitam mudar-se para trabalhar no campo. Carolina encaixota os livros escolares e o seu corpo passa a ocupar novos espaços, mais tranquilos e longe do ambiente de educação formal a que teve acesso na cidade.


Durante esse período, a autora relata outros tipos de relação com os livros. Em um ambiente de calmaria, perde-se em suas distrações, como quando deixa o feijão queimando por estar envolvida com determinada leitura. Um mergulho no universo das letras a faz abandonar temporariamente a realidade e esquecer-se dos afazeres cotidianos, enquanto se deleita com alguma história.


Esta etapa é rapidamente interrompida pelas difíceis condições de trabalho; após períodos de novas mudanças da família para outras cidades, Carolina chega, desta vez sozinha, à cidade de São Paulo: “Fiquei preocupada com o corre-corre dos paulistas. Parece que estão sendo perseguidos por alguém” (JESUS, 2019, p. 23). E aqui o seu corpo volta novamente a um movimento acelerado.


A escritora relata uma modificação em seus pensamentos com essa mudança e sente vontade de escrever versos. Em sua narrativa, faz referência a uma reportagem publicada pelo jornalista Willy Aureli. Os efeitos desse acontecimento em sua vida são relatados neste texto a partir do momento em que sai da redação do jornal e começa a lidar com todo o impacto das palavras que ouviu, dos textos que apresentou, de sua relação com seu trabalho de escritora.


Carolina volta para casa levando as palavras recebidas neste instante como quem carrega um embrulho, com algo bom, mas ao mesmo tempo incômodo. No dia em que é entrevistada para a reportagem, lê alguns versos, dentre eles, O colono e o fazendeiro, um poema que retrata a complexa situação dos trabalhadores do campo, que acaba sendo escolhido e publicado. A escritora pensa no significado da palavra poetisa, refere-se a ela no caminho de volta em um diálogo com um desconhecido e, após algumas considerações, diz: “lá no interior eu não tinha enfermidade”(JESUS, 2019, p. 25). Ser poetisa aparece em sua escrita como um diagnóstico, tendo em vista os efeitos que escrever causa em seu corpo.


No trajeto, Carolina pede um livro de poemas em uma livraria, aprende sobre as rimas e pensa se deveria contar para os vizinhos que era poetisa. Quando encara o fazer poético como algo que é inerente ao seu modo de relacionar-se com o mundo, a escritora reflete:


Enquanto as outras pessoas me admiravam, só uma coisa preocupava-me: eu queria ficar livre do pensamento poético que impedia-me o sono. Percebi que andando pra cá e pra lá os pensamentos poéticos se dissipam um pouco. Comecei a trabalhar com rapidez. Terminava um serviço, iniciava outro. E aprendi a trabalhar depressa. Andar depressa. Não paro um segundo. Quando eu entro num bar para tomar algo, eu digo: quer servir-me logo? (JESUS, 2019, p. 26).


O pensamento poético muda a sua relação com o cotidiano e a movimentação passa a dissipar um pouco as preocupações literárias na escritora, tornando-se um ponto de equilíbrio entre o necessário momento de leitura e escrita e as urgências imediatas. Há uma tentativa de harmonizar a percepção da literatura em seu corpo e o modo como decidirá ajustar-se para lidar com a nova situação:

Quando desperto, deixo o leito e vou carregar água, lavar roupas, louças, etc. E daí começa o meu calvário – andar a pé, ficar exausta. Sento-me com o lápis na mão, porque quando escrevo o meu cérebro se normaliza. Depois que se promanavam em mim as ideias literárias eu deixei de agafanhar-me. Não é desleixo. É que eu sou triste interiormente. Procuro demonstrar uma alegria que estou bem longe de sentir. O que notei é que o pensamento do poeta é valise e as suas meditações estão sempre ao lado dos fracos. E o poeta é íntegro e superior à sedução (JESUS, 2019, p. 27).

Após todos os movimentos destacados, com a revelação da poética em sua vida, Carolina organiza-se através da escrita, consegue alguma tranquilidade para o seu cotidiano. Frente à rotina pesada de serviços domésticos e o trabalho de andar muito para buscar papel para vender e obter sustento, a escrita traz um norte, a calma necessária frente aos impasses da realidade.


O pensamento poético de Carolina defronta-se com o sistema formal da poesia. Ela entra em contato com obras de poetas conhecidos no país e a estrutura da poesia quando aprende sobre as rimas e seu sistema de funcionamento. Entretanto, a sua construção sobre o fazer poético também se aproxima do que apresenta Audre Lorde (2019, p. 46) “poesia como destilação reveladora da experiência”, como uma necessidade a partir desta relação com o corpo.


O texto deste Prólogo 2 é uma aula sobre escrita, sobre os modos de lidar com a escrita e como ela impacta todo o cotidiano da autora. Os textos de Carolina, além de seu próprio corpo, moveriam outros corpos para a escrita, para o diálogo com seus escritos, como no caso da mãe da escritora Conceição Evaristo, que começa a escrever um diário a partir das leituras de Carolina, conforme relata a escritora em depoimento dado ao I Colóquio de Escritoras Mineiras (2009):


Minha mãe leu e se identificou tanto com o Quarto de Despejo, de Carolina, que igualmente escreveu um diário, anos mais tarde. Guardo comigo esses escritos e tenho como provar em alguma pesquisa futura que a favelada do Canindé criou uma tradição literária. Outra favelada de Belo Horizonte seguiu o caminho de uma escrita inaugurada por Carolina e escreveu também sob a forma de diário, a miséria do cotidiano enfrentada por ela.


Desta maneira, outros corpos participam da trama iniciada pelas publicações da autora, como o da escritora antilhana Françoise Ega, que escreve para Carolina em um livro publicado originalmente em 1978 e recentemente lançado no Brasil com o título Cartas a uma negra (Todavia, 2021) contando, assim como fez a escritora brasileira, sobre os embates de seu corpo em um cotidiano de discriminações e exploração do trabalho. Nesse livro, a sua escrita vai se enredando aos dias como um fio que a permite continuar em sua luta. Nessa narrativa, temos Françoise dedicando-se aos seus escritos ou em sua rotina de trabalho, subindo e descendo escadas, exposta ao perigo nas casas onde trabalha, e construindo alternativas a partir de seus posicionamento e do auxílio aos seus irmãos:


[...] A mulher de cinza que sempre senta na minha frente ficou intrigada. Ela perguntou a quem eu escrevia, e emendei:

“Para a Carolina!”

“É a sua filha?”

“Não, é a minha irmã” (EGA, 2021, p. 158).


Os movimentos causados pela escrita de Carolina mostram todo o universo que se constituiu desse incômodo que se inicia em seu próprio corpo, dessa enfermidade, que inicialmente parecia ser o dente: “Eu estava disposta a extrair todos os meus dentes” (JESUS, 2019, p. 26), diz Carolina, e ela tinha toda a razão: entre os dentes estava sua literatura e toda a mudança que ela começava a causar.


COMO CITAR ESTE ARTIGO:

SANTOS, Tatiane Silva. “Entre os dentes: corpo e escrita de Carolina Maria de Jesus”, em Revista Ponte, v. 1, n. 7, nov. 2021. Disponível em: https://www.revistaponte.org/post/ent-den-cor-esc-car-mar-jes.


Tatiane Silva Santos é professora da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), mestra em Literatura e doutoranda em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é membro dos grupos Mulheres na Edição e Grupo de Estudos e Pesquisa Produção Escrita e Psicanálise (GEPPEP).

 

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Referências


EGA, Françoise. Cartas a uma negra. Trad. Vinícius Carneiro e Mathilde Moaty. São Paulo, Todavia, 2021.


JESUS, Carolina Maria de. Meu sonho é escrever. Organização: Rafaella Fernandez. São Paulo, Ciclo Contínuo Editorial, 2019.


LORDE, Audre. Irmã outsider. tradução Stephanie Borges. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019.