Escola e Saúde – Reflexões a partir da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE)

Os dados revelam muito sobre o cenário estudantil em que vivemos. Neste artigo, Samuel Cruz faz uma análise de dados estatísticos a partir da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar de 2015, correlacionando bebida e sexualidade entre adolescentes. Descubra o que os dados revelam sobre as relações entre saúde e escola.


Refletir para agir é fundamental. A reflexão permite construir bases para a ação. Uma das molas para a reflexão é conhecer e pensar sobre dados de um determinado fenômeno. Proponho, então, refletir sobre a tríade álcool-sexo-gravidez a partir de algumas informações da PeNSE(1).


A última divulgação da PeNSE, elaborada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, foi em 2015, mas, apesar de passados alguns anos, ainda nos permite construir algumas lentes importantes para ver os fatores de risco e proteção à saúde do setor escolar. A pesquisa é feita por amostra probabilística em estabelecimentos de ensino de todas as unidades da federação e tem como público-alvo alunos de 13 a 17 anos que frequentam do 6º ao 9º ano do ensino fundamental e da 1ª a 2ª série do ensino médio, tanto em escolas públicas como em estabelecimentos privados.


Iniciemos com o seguinte resultado: 55,5% dos escolares brasileiros que frequentavam o 9º ano do ensino fundamental experimentaram bebida alcoólica alguma vez e a Região Sul foi a que apresentou o maior percentual de alunos que experimentaram bebidas: 65,9%; a Região Norte, com 50,6%, foi a que apresentou o menor percentual.


Uma primeira reflexão que se pode fazer é sobre o motivo de um jovem entre 13 e 17 anos beber: pais e amigos que bebem podem ser uma explicação; eventual desestruturação familiar, também. No entanto, podemos investigar, por exemplo, em que medida a necessidade de aceitação explica o fenômeno. Do mesmo modo, até onde as tradições culturais influenciam o comportamento dos estudantes em relação ao álcool é uma outra linha de investigação.

O resultado da Região Sul, significativamente maior do que os das demais regiões brasileiras, merece reflexão. Afinal, o que se passou para que 74,9% dos estudantes de Porto Alegre terem experimentado uma bebida alcoólica e no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Belo Horizonte esse percentual ter oscilado entre 55 e 58%? E por que Aracaju é a capital nordestina onde há o maior percentual de alunos que já beberam (60,1% contra 47,3% de Natal, que tem o menor percentual da região)?


O que a escola tem a ver com isso deveria ser óbvio, uma vez que este aluno, com seu organismo pleno de alterações biológicas, fisiológicas e físicas e com as eventuais tempestades emocionais da adolescência, o álcool, no mínimo, será péssimo conselheiro e a escola, não nos esqueçamos, tem que estar incluída e incluir a comunidade, o entorno, tal como preconiza nossa Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996(2). Perfeito, mas o que importa é: o que a escola e os professores podem fazer? Observar e ouvir.


O professor tem que ser um sujeito observador e precisa estar atento à escuta. É ele o "analista de plantão", aquele que pode mudar a vida de um aluno a partir da simples observação que inclui ver e ouvir: ver o comportamento, a euforia ou a tristeza; ver o engajamento ou o isolamento. Ver e também ouvir o som de seu aluno, principalmente aquele som não produzido, o silêncio, som que fala muito a um bom observador.


"São muitos alunos para permitir essa observação atenta", alguns diriam. "O que foge à média, o que destoa, sempre será percebido desde que o olhar esteja atento", eu responderia. O professor, para usar a ideia de nossa Revista, é a ponte entre o aluno e a escola e entre esta e a família, a sociedade.


Sigamos com outra reflexão, especificamente sobre quais fatores explicam Porto Alegre e Aracaju terem tido os resultados que tiveram: certamente, não creio ser o frio uma boa explicação, não só porque ele não costuma aparecer em Aracaju como também porque, se fosse o frio, Curitiba, a capital mais fria do Brasil, e as cidades serranas do Sul, de São Paulo, de Minas Gerais e do Rio de Janeiro deveriam também registrar este fenômeno. O frio pode ajudar, mas, com certeza, fatores como o exemplo dos pais e a desinformação são fundamentais. Em função disso, o professor pode ser o agente que informa, de modo criativo e que desperte a atenção do adolescente, sobre as consequências do uso de álcool.


Outra importante informação que traz a PeNSE é sobre o percentual de escolares do 9º ano que já tiveram relação sexual: 27,5% no Brasil. Aqui, façamos o raciocínio inverso do que fizemos para a questão do álcool, ou seja, vamos partir de alguma hipótese sobre o tema e verificar se os números nos dão algum suporte.


É amplamente conhecida a situação de vulnerabilidade por que passam as crianças do Norte e do Nordeste em relação à prostituição, o que nos levaria a crer que os percentuais dessas regiões seriam maiores que os das demais. Vejamos: no Norte, 36,5% dos escolares tiveram relações sexuais (47,0% dos meninos e 26,0% das meninas); no Nordeste, 27,4% do total; no Sudeste, 25,0%; no Sul, 28,4% e 30,0% dos estudantes do Centro-Oeste tiveram relações sexuais. Deste modo, os dados do Norte corroboram nossa ideia, embora os do Nordeste não o façam.


Porto Alegre (43,3%) e Manaus (40,5%) são as capitais brasileiras com as maiores proporções de estudantes que já tiveram relações sexuais, enquanto João Pessoa (20,8%) e Teresina (20,8%) apresentaram os menores percentuais.


Temos, então, um resultado que nos leva a outras questões: embora precisássemos de dados sobre as cidades do interior para verificar o que se passa nas regiões mais capitais, Manaus parece apontar no sentido de nossa hipótese, mas Porto Alegre nos remete à questão do álcool. Então, algo a pensar seria: há relação entre as duas "descobertas", ou seja, maior ingestão de álcool e maior taxa de relações sexuais entre os alunos de Porto Alegre possuiriam alguma correlação? Podemos afirmar que há uma possibilidade teórica de que isso ocorra, pois, obviamente, o álcool, a depender do nível de ingestão, reduz a pressão do superego, das restrições pessoais, liberando desejos sem muitos filtros. No entanto, precisamos de dados para confirmar tal correlação ou de uma pesquisa qualitativa que comprove o fato. Podemos, no entanto, deixar nosso pensamento fluir na busca de fenômenos associados ao fato. Por exemplo: maior atividade sexual implica maior risco de gravidez caso métodos contraceptivos não sejam adotados. Tomemos os casos de Manaus e Porto Alegre.


Em Manaus, 2,3% das alunas engravidaram alguma vez (no Brasil, esse percentual foi de 0,9%); em Porto Alegre, 1,2% engravidaram (apenas para matar a curiosidade, em Vitória, o percentual foi de 0,6% e em Teresina, 0,7%). Assim, podemos investigar se Manaus e Porto Alegre são capitais onde a adoção de métodos contraceptivos é menor entre os estudantes. Vejamos: no Brasil, 63,0% dos estudantes utilizaram camisinha e 62,0%, outro método contraceptivo. Em Manaus, 69,3% usaram camisinha e 60,3%, outro método e, em Porto Alegre, 73,1% usaram camisinha e 75,9%, outro método. Assim, Porto Alegre, a capital com maior percentual de gravidez, é também aquela que registra o maior uso de métodos contraceptivos e Manaus é a terceira capital brasileira onde os estudantes mais usam métodos contraceptivos diversos da camisinha. Sobre o uso de camisinha, o dado de Manaus, que fica em 13º entre as capitais brasileiras onde os estudantes tiveram relações sexuais, possivelmente carece de maior trabalho de esclarecimento sobre sexo e gravidez.


Precisamos conhecer os dados e informações confiáveis produzidos no país. O IBGE, o INEP, o MEC, o IPEA, as Secretarias de Educação e os institutos estaduais de pesquisa, além das universidades, são fontes confiáveis de produção e pesquisa. Para dados confiáveis, sempre devemos buscar a informação no IBGE, que adota metodologias internacionalmente reconhecidas. Para além dos poucos comentários sobre os dados da PeNSE aqui apresentados, importa construir e testar nossas hipóteses sobre um fenômeno escolar ou sobre qualquer fenômeno social. E o que podemos inferir desta passagem pelos números? Concluímos que, em parceria com outros agentes educacionais, o professor é e pode ser sempre mais um agente de mudança. A partir de um conhecimento estatístico e científico da da realidade, essa função fica muito mais eficiente e eficaz.


Samuel Cruz é economista, advogado e psicanalista clínico, com doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestrado pela PUC-Rio. Atualmente é pós-doutorando em Psicologia Social pela Universidade John Kennedy de Buenos Aires. Atua como analista socioeconômico do IBGE, como professor-tutor da Universidade Castelo Branco e na pós-graduação de diversas instituições de ensino. Escreve mensalmente na Ponte, onde assina a coluna Sexualidade e educação.



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Referências Bibliográficas:


BRASIL. Lei 9394/96. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm.

Acesso em 07 mar.20212.


IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional Sobre a Saúde do Escolar. Rio de Janeiro: IBGE, 2015. Disponível em https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/educacao/9134-pesquisa-nacional-de-saude-do-escolar.html?=&t=resultados. Acesso em 07 mar. 2021.



NOTAS:

(1) Para mais detalhes sobre a pesquisa, consultar a metodologia e os dados da PeNSE. Disponível em https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/educacao/9134-pesquisa-nacional-de-saude-do-escolar.html?=&t=resultados. Acesso em 07 mar. 2021. (2) BRASIL. Lei 9394/96. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em 07 mar.20212.