Esperançar em tempos de pandemia: relato de uma professora da rede pública de Belo Horizonte


Relato por Akemi Miqueline Takahashi[1]


É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…
Paulo Freire

COM A PALAVRA, AKEMI TAKAHASHI, PROFESSORA DA REDE PÚBLICA DO ESTADO DE MINAS GERAIS



Belo Horizonte. Fevereiro de 2021.



O atual contexto de pandemia em que estamos vivendo nos faz pensar sobre os impactos que tudo isso tem acarretado em nós docentes e discentes. Entre penhascos e abismos, procuramos uma ponte que nos mostrasse o caminho a seguir. Podemos dizer que a nossa meta de 2020 foi a de tentar sobreviver. E olhe que isso não foi uma tarefa fácil! De repente todas as nossas certezas se foram, roubaram a nossa rotina e tivemos que aceitar uma outra, imposta “goela abaixo”. Coisas simples e corriqueiras como ir trabalhar na escola, encontrar com os estudantes, ir para a sala de aula, sentar em rodinhas, dialogar, brincar, aprender e divertir foram abruptamente congeladas e, no lugar disso, ficaram o medo do vírus, o distanciamento social e o olhar a vida de longe, pelos muros, janelas e mídias sociais.


A reação inicial é que professores e estudantes ficaram perplexos diante desse novo cenário que se apresentava. Se, no ensino presencial, já era difícil fazer da Educação e do exercício de ensino e aprendizagem um ato prazeroso, interessante, que cativasse as crianças e as motivasse à exploração do novo, ao encanto com as descobertas, quem dirá agora no ensino a distância. Como professora do Ensino fundamental e da escola pública, a única certeza que tenho é a de que estamos tentando fazer o nosso melhor. Literalmente é como se acabássemos de sair da graduação de Pedagogia e estivéssemos inexperientes com a nossa primeira turma, tamanhas são as nossas perguntas e indagações para o momento. Como atingir a todos sem exceção? Como estarão nossas crianças? Estão com saúde? Como são as relações de convivência em sua casa? Estão se alimentando? Estão brincando? Estão sendo crianças e vivendo a infância em sua plenitude? Enfim, não temos experiência ou um modelo a seguir para lidar com esse novo cenário e, com o coração apertado, vamos tentando oferecer aos estudantes, dentro das possibilidades, aquilo que nos é permitido: estabelecer vínculos que possam trazer um certo conforto e carinho para eles. Tentamos nos fazer presentes nesse momento tão instável e difícil para todos. O sofrimento é geral. Tiraram o nosso chão e aprender a usar as novas ferramentas tecnológicas não é o nosso maior problema, mas entender, de fato, quais são as reais necessidades de docentes e discentes, bem como oferecer a humanização de todo esse processo, para que não seja tão doloroso e cruel.


Por outro lado, tenho avaliado o que nos foi tirado em 2020 e confrontado essa perda com os ganhos que, mesmo que indiretamente, a pandemia nos trouxe. Se pudéssemos condensar todas as lacunas, certamente uma indagação se sobressairia: “O que de fato é importante agora?” Se o objetivo era sobreviver e estamos nos cuidando e com saúde, já estamos no caminho certo. Temos que ter essa clareza de que precisamos aproveitar o tempo e as oportunidades que nos são dadas e, enquanto professora, vários pensamentos me assolam: “O que os estudantes esperam de mim? O que gostaria de oferecer aos meus estudantes? O que significa a escola para eles? De que maneira posso estabelecer vínculos com as crianças?”.


Cada escola tem feito as suas escolhas metodológicas e pedagógicas, de acordo com o seu público escolar para chegar até os estudantes, para criar pontes humanas em um ambiente virtual. Em meio a essas decisões, o que não podemos perder de vista é que a escola precisa ser democrática e igualitária, precisa de veículos que cheguem a todos sem exceção; e que, chegando até todos os estudantes, o ensino e a aprendizagem sejam reais e significativos para eles. Temos que parar de focar em conteúdos compartimentados e dissociados da realidade e sim propiciar que as crianças sejam afetadas e movidas à construção do interesse pelas oportunidades reais de aprendizagem.


Compartilho das ideias contemporâneas sobre o perfil do profissional que deve emergir no cenário mais globalizado que marca o século XXI, um profissional conectado com a realidade e com as novas demandas da sociedade. Nesse sentido, Moran (2005) já delineia o surgimento desse novo professor antenado com os novos paradigmas e desafios que a realidade apresenta, não prevalecendo as relações verticais de aprendizagem, mas interações que proporcionam as relações horizontais e enfatizando o protagonismo dos estudantes.


O novo profissional da educação integrará melhor as tecnologias com a afetividade, o humanismo e a ética. Será um professor mais criativo, experimentador, orientador de processos de aprendizagem presencial e a distância. Será um profissional menos falante, menos informador e mais gestor de atividades de pesquisa, experimentação e projetos. Será um professor que desenvolve situações instigantes, desafios, solução de problemas e jogos, combinando a flexibilidade dos espaços e tempos individuais com os colaborativos grupais (MORAN, 2005, p.12)


A Educação Humanizada já nos dá uma direção assertiva a seguir. Lidamos com pessoas, com crianças e essas relações construídas são pontes que nos ligam ou desligam uns dos outros, que constroem ou destroem, que formam ou deformam. Daí a importância de viver o momento com calma, de buscar encontrar o humano em nós mesmos e nos outros, não nos preocupando com números, planilhas e índices a alcançar, mas vivendo intensamente cada momento no contato gerador de aprendizagem... E tudo bem se não dermos conta, o que não pode acontecer é desistir. Desistir de recomeçar, desistir de lutar, desistir de viver! É o esperançar de Paulo Freire:“É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…” (FREIRE, 1992, s. p.).


O grande aprendizado destes tempos tem sido o de valorizar o momento presente e tentar reunir forças (de onde nem imaginamos que teríamos) para dar os nossos passos, nos movendo, tirando-nos do lugar do medo, reinventando-nos nesses caminhos tortuosos e também incentivando os nossos estudantes a darem seus primeiros passos, tentando sobreviver e viver nesse desconhecido mundo pandêmico que agora nós temos.


Freire (1987) descreve o processo educativo como responsável pela tomada de consciência, possibilitando ao educando inserir-se no processo histórico como sujeito. Nas palavras de Freire, podemos vislumbrar a importância da escola e do seu papel de desnudar a realidade aos educandos, para que possam ler e interpretar não somente os textos, mas a vida; para que, assim, possam entender o momento atual, cuidando-se e discernindo as verdades e mentiras que circulam pelo mundo. Penso que 2020 e, agora, 2021 querem trazer à tona um novo paradigma humano: um sujeito que é protagonista, que tem as suas ideias, que luta pela sobrevivência, que vê a realidade ao seu redor e que, de certa forma, quer e pode transformá-la, a começar por pequenos gestos e ações que conseguem fazer em defesa da vida.



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Bibliografia:


FREIRE,P. Pedagogia do Oprimido. Rio de janeiro: Paz\ e Terra, 1987.

_______. Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

Moran, J. M. As múltiplas formas do aprender. Revista Atividades & Experiências, Julho, 2005.


[1] Professora da Rede Municipal da Prefeitura de Belo Horizonte. Mestranda em Educação/ PROMESTRE/FAE/ UFMG. Email: akemi.takahashi@edu.pbh.gov.br