A história da ciência e o ensino transdisciplinar: estudo de plantas de fortificação

Neste artigo, a doutora Luiza Nascimento de Oliveira da Silva defende a criação de novas estratégias de ensino que englobem diferentes perspectivas transdisciplinares, usando como exemplo o ensino de arquitetura militar em tempos pretéritos, que conjugava campos de investigação como geografia, cartografia, matemática e geometria, bem como a história militar.


Fonte: Wix


Ao articularmos as histórias de defesa e de governo português, é possível perceber que o ensino da arquitetura militar em tempos pretéritos conjugou outros campos de investigação, tais como geografia, cartografia, matemática e geometria, bem como a história militar. O diálogo com tais esferas temáticas pode ser incorporado tanto em sala de aula quanto em espaços não formais de educação, como os museus. Desse modo, o estudo das defesas de cidades portuguesas pode ser alinhado às ditas dimensões em uma perspectiva urbana e política como exemplo de ensino transdisciplinar.


As plantas de fortificação incorporam em suas confecções os campos de investigação e temáticas elencadas acima. Por isso, em face de conjugar em sua leitura interpretativa aspectos concernentes à geometria, à geografia e à defesa militar, há o elemento da representação, do desenho como desígnio ou proposta. No caso do estudo da defesa da cidade do Rio de Janeiro dos séculos XVII e XVIII, havia na elaboração dos projetos defensivos a evocação do equilíbrio entre as partes, a aplicação dos elementos de defesa dispostos em ordem, simetria, decoro e, com isso em consonância, ao ideal de perfeição. Assim, o espaço geometrizado passava a ser uma busca real e uma nova visão de mundo se impunha. Visão esta voltada às dimensões vitruvianas da simetria, já citadas aqui. Estamos diante de um exemplo de uso social da ciência.


Importa exemplificar tal dinâmica com a proposta de defesa para a Lage. Esse terreno está localizado na Baía de Guanabara, na cidade do Rio de Janeiro. O seu desenho implicou em adequações ao terreno. Nesse sentido, o equilíbrio e a última perfeição seriam atingidos. Através do estudo das dimensões das medidas das linhas de defesa propostas, é possível compreender os modelos de defesas a serem seguidos.


Os desenhos para o sítio da Lage, de Diogo da Silveira Velloso, de 1704, também são exemplos. Silveira Velloso foi aluno de Francisco Pimentel (mesmo assim os pareceres deste último eram necessários para legitimar o seu desenho de defesa para a cidade do Rio de Janeiro), na Academia Militar da corte. Silveira Velloso foi nomeado para a Colônia de Sacramento, em 1702, mas permaneceu no Rio de Janeiro, onde serviu por três anos e meio, passando a se dedicar ao ensino militar no Recife, em 1705, local em que passou a maior parte de sua vida. Ali alcança o posto de sargento-mor em 1720. Já em 1730 foi promovido ao cargo de tenente-general, exercendo as funções de engenheiro. Em 1735, ocupara o cargo de tenente-general de Artilharia, sem deixar de lado o seu trabalho como engenheiro.


No mapa, com o título: “Demonstração da barra do Rio de Janeiro e planta da Lage”, do ano de 1645(1), o autor apresenta a disposição da barra da cidade, composta do forte São João (lado oeste), ao lado do Pão de Açúcar, e uma barra por onde navios de pouco porte poderiam passar. As dimensões de um polígono quadrado, com quatro baluartes, são inscritas para esse forte. Para o lado leste do desenho, há a fortaleza de Santa Cruz, com o modelo circular que realmente foi apresentado em desenhos e posteriormente edificado. Além disso, há ainda a sua barra para grandes embarcações.

Já na legenda que se segue da planta da Laje é possível notar que se trata de uma planta de fortificação que mostra a real dimensão de seu terreno irregular.


Lage que está no meio da barra do Rio de Janeiro. a grandeza dela conforme o parecer de homens bem entendidos. e que tem estado naquele Rio por muitas vezes de quem tomei essa Informação. faz a figura que se mostra; a grandeza dela afirmam ser como o panteão da alfândega de Lisboa; tem para uma parte um penedo. nascido sobre a mesma lage não muito alto; está lage com tempos rijos [duros] é mais combatida do mar e quase lançada dele. está apartada da fortaleza Santa Cruz que lhe fica da banda de leste um tiro de mosquete e faz com a dita fortaleza a barra principal capaz de grandes navios. e pela parte oeste lhe fica o baluarte São João. com o qual faz outra barra de pouco fundo que só serve para navios de pouco porte(3).


A distância correta, conforme o desenho e explicado na legenda, era a do tiro de mosquete. Sobre esse ensino, os tratadistas determinavam ainda mais: não era apenas entre uma fortificação e outra que a distância não poderia ultrapassar a medida do tiro. Esse valor também determinava a medida do lado da edificação defensiva.


“Digo que em quando se não faz exame mais exato das armas particulares no país se esteja pelas do método Lusitano [de Luís Serrão Pimentel], o qual põe exemplo no lado de 600 pés”(3).


Nas palavras do próprio Serrão Pimentel, em sua segunda máxima:


“2ª. Que as partes flanqueadas não sejam mais distantes das flanqueantes que à tiro de mosquete. A razão é, por ser o mosquete a principal arma da defensa”


Pelo exposto, pode-se notar que o argumento da necessidade de criação de estratégias de ensino que englobem diferentes perspectivas disciplinares pode então ser reforçado a partir de uma abordagem transdisciplinar, como é o caso aqui analisado sobre o estudo de fortificações e a sua aplicabilidade no ensino de várias disciplinas curriculares.



1- Do seu autor, Manoel Vaz Pereira, não se encontrou dados biográficos.

2- Inscrição no desenho. AHU_CARTm_017, D. 1053.

3- GONZAGA, Luiz. “Exame Militar”, 1703, fol. 149.



COMO CITAR ESTE ARTIGO:


DA SILVA, Luiza Nascimento. "A história da ciência e o ensino transdisciplinar: estudo de plantas de fortificação", em Revista Ponte, v. 1, n. 6, ago. 2021. Disponível em https://www.revistaponte.org/post/histó-ciên-def-ens-transdisc-est-plan-fort



Luiza Nascimento de Oliveira da Silva é graduada em História e doutora em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHIS/UFRJ). Atuou como bolsista do CNPq nos anos de sua pesquisa e é mestre pelo Programa de Pós-Graduação em História Social da Cultura da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.



 

Este artigo foi importante para a sua reflexão? Então ajude a Revista Ponte a manter este projeto e conheça o nosso projeto de financiamento coletivo no Catarse.


 

Bibliografia


GONZAGA, Luiz. “Exame Militar”, 1703, fol. 2. Biblioteca da Ajuda, COD. MS. 46-VIII-26.

PIMENTEL, Luís Serrão. "Tratado da opugnação e defensa das Praças", ca. 1644. BNP, Manuscritos reservados COD 1640.


____. "Architectonica Militar ou Fortificação moderna", 1661. BNP, Manuscritos reservados COD 13473.


____. “Método Lusitano de Desenhar as Fortificações das Praças Regulares e Irregulares. Fortes de Campanha e outras obras pertencentes à arquitetura militar. Distribuído em duas partes, Operativa e Qualificativa (1680).” BNP digital: http://purl.pt/24485


SOARES, Diogo. “Novo Atlas Lusitano ou Teatro Universal do Mundo Todo (1721).” Biblioteca Nacional de Portugal.