Literatura na escola: entre o uso e a interpretação

A professora Daiane Pimentel apresenta neste artigo uma reflexão sobre o papel da interpretação no ensino da literatura. Partindo dos possíveis conflitos que podem surgir nos primeiros contatos dos jovens com o texto literário, a pesquisadora mostra como as experiências de interpretação podem contribuir para uma educação humanizada.






A notícia veio de supetão: iam meter-me na escola. Já me haviam falado nisso, em horas de zanga, mas nunca me convencera que realizassem a ameaça. [...] A escola era horrível e eu não podia negá-la, como negara o inferno. Considerei a resolução de meus pais uma injustiça. Procurei na consciência, desesperado, ato que determinasse a prisão, o exílio entre paredes escuras.”


Nesse trecho, a escola é apresentada, a partir da perspectiva de uma criança, como um lugar opressor, tão terrível quanto o inferno. Sem poder escapar do castigo impingido pelos pais, o jovem estudante se dirige à sala de aula, onde as expectativas negativas apenas se confirmam. Um dos elementos que contribuem fortemente para tal confirmação é a literatura:


“Foi por esse tempo que me infligiram Camões, no manuscrito. Sim senhor: Camões, em medonhos caracteres borrados – e manuscritos. Aos sete anos, no interior do Nordeste, ignorante da minha língua, fui compelido a adivinhar, em língua estranha, as filhas do Mondego, a linda Inês, as armas e os barões assinalados. [...] Deus me perdoe. Abominei Camões”.


As passagens acima se tornaram célebres e talvez o leitor já tenha reconhecido a criança que abominou a escola e Camões: Graciliano Ramos. Em um primeiro momento, os excertos, retirados do livro de memórias Infância, surpreendem-nos, pois parecem contradizer a imagem que se tem de um escritor. Poderíamos nos dedicar a imaginar como Graciliano, apesar de o primeiro contato com a educação formal e com a leitura literária ter sido traumático, conseguiu ressignificar seu elo com a literatura. Entretanto, gostaria, por ora, de me concentrar na cena da experiência do pequeno aluno e leitor – sem considerar o escritor que ele se tornou –, porque encontramos ali elementos que nos fazem refletir sobre o uso da literatura na escola.


Em Os limites da interpretação, Umberto Eco (1992) estabelece a diferença entre a interpretação e o uso de uma obra: interpretar é a atividade que se debruça de fato sobre o texto, intenta compreendê-lo criticamente e construir-lhe, numa determinada conjuntura, um sentido; o uso parte do texto, mas o faz para chegar a outro ponto, ou seja, a literatura torna-se o meio de se alcançar algum objetivo específico. Eco reconhece que, em certas situações, pode haver a necessidade de se usar um texto. De fato, no contexto escolar, quantas vezes o professor, como o do jovem Graciliano Ramos, recorre à leitura de determinada obra com o exclusivo intuito de o estudante enriquecer o vocabulário, dominar estruturas linguísticas, construir um repertório, conhecer uma cultura, aprender sobre os estilos e os gêneros literários? Contudo, segundo Eco, a leitura literária não poderia se limitar a tais usos, entendendo aqui o uso como a aplicação do texto literário para fins didático-pedagógicos; pelo contrário, deve essa leitura deve ser orientada primordialmente pela interpretação, ou seja, pelo minucioso trabalho de análise das diferentes dimensões do texto. Afinal, se, na sala de aula, o ensino de literatura jamais se desvencilhar do uso, provavelmente o sofrimento do jovem Graciliano será repetido e Camões continuará sendo apenas um pretexto para o educando saber sobre as filhas do Mondego, a linda Inês, as armas e os barões assinalados - elementos da cultura portuguesa (e não da brasileira).


Trazer à tona questões relacionadas à presença da literatura no contexto escolar implica levar em consideração também as responsabilidades éticas de professores, conforme destaca J. Hillis Miller (1995) em A ética da leitura. Nas palavras do ensaísta,a obrigação ética primária do professor de literatura é para com a obra literária” (MILLER, 1995, p. 85, grifos do autor), o que significa que o ato de leitura deve nortear a prática pedagógica (e não o contrário). Ademais, é importante destacar que essa leitura não é “um resultado direto das pressuposições ‘teóricas’ do leitor” (MILLER, 1995, p. 86). Sob tal perspectiva, o estudante, o motivado por seu professor, lerá uma obra não para encontrar características de determinada escola literária ou de certo gênero – atitude que configuraria um uso daquela obra e que ainda costuma ser recorrente na Educação Básica –, e sim para ter uma experiência de interpretação. Dessa forma, a literatura poderá desempenhar a sua maior função: contribuir para a humanização do indivíduo.



COMO CITAR ESTE ARTIGO:


PIMENTEL, Daiane Carneiro. “Literatura na escola: entre o uso e a interpretação”, em Revista Ponte, v. 1, n. 4, abr. 2021. Disponível em: https://www.revistaponte.org/post/lit-escola-uso-interpret



Daiane Carneiro Pimentel é professora da FACISABH e do Colégio Loyola, com mestrado e doutorado em Estudos Literários pela UFMG. Atua principalmente nos temas: fragmentação da narrativa, espaço literário, modernidade, vanguardas, relações interartísticas, livro e obra. Escreve mensalmente na Ponte, onde assina a coluna Literatura, educação e cidadania global.

Email: d.cpimentel@yahoo.com.br.




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Bibliografia


ECO, Umberto. Os limites da interpretação. Trad. De José C. Barreiros. Lisboa: DIFEL, 1992.


MILLER, J. Hillis. A ética da leitura. In: MILLER, J. Hillis. Ensaios 1979-1989. Rio de Janeiro : Imago, 1995.


RAMOS, Graciliano. Infância. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 2011.