Literatura em sala de aula: uma potência ignorada


Para que estudar literatura? Qual é a utilidade desse saber na vida de sujeitos em formação? A professora e pesquisadora Daiane Carneiro Pimentel tece algumas reflexões sobre o utilitarismo em torno do ensino de literatura e apresenta respostas às perguntas de estudantes que questionam a necessidade de estudar a arte literária.



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Não raro, o professor, seja ele de qualquer disciplina, é interpelado por seus alunos: eu tenho que aprender isso para quê? Podem surgir, então, respostas simplórias e reducionistaspara passar de ano ou para conseguir entrar na faculdade –, as quais negligenciam a dimensão crítica presente na indagação, dimensão essa que é fundamental no processo de construção do conhecimento. Ora, investigar o para quê?, longe de ser algo exclusivo de estudantes questionadores, por vezes vistos, injustamente, como meros provocadores, é também uma das forças motrizes de pesquisadores das mais variadas áreas. E nos Estudos Literários não seria diferente, como demonstra, por exemplo, Antoine Compagnon, cuja aula inaugural no Collège de France, em 2006, girou em torno justamente da pergunta: literatura para quê?


De certa maneira, na questão levantada pelo renomado professor e pesquisador francês, parecem ecoar dúvidas que costumam perturbar estudantes recém-iniciados no universo da análise literária, no qual não faltam complexos conceitos. É como se, no momento em que ingressava em uma das mais célebres instituições da Europa, Compagnon se permitisse lançar um olhar crítico à própria condição de um estudioso da literatura, para, assim, perscrutar as funções desempenhadas pelas obras literárias. Consciente de que corria o risco de ser tachado de ingênuo ou démodé por questionar literatura para quê?, e não o que é a literatura?, o orador defende que sua pergunta-mote é crítica e política, uma vez que se sustenta no intuito de defender o conhecimento literário em um contexto em que o espaço da literatura tem se tornado escasso não apenas na imprensa e no âmbito dos lazeres como também “na escola, onde os textos didáticos a correm, ou já a devoraram” (COMPAGNON, 2009, p. 21). Nesse sentido, ao acompanharmos o percurso empreendido por Compagnon em sua aula inaugural, nós professores e professoras encontramos algumas interessantes maneiras de responder os alunos que ainda desconfiam do poder da literatura.


Compagnon recupera, a princípio, quatro respostas dadas à questão literatura para quê? ao longo do tempo: a clássica, a romântica, a moderna e a pós-moderna. Na Antiguidade Clássica, Aristóteles valorizou a mimesis como forma de aprendizagem, o que implicou atribuir à literatura, que seria uma arte mimética, a função de deleitar e, concomitantemente, instruir. Já no Romantismo a literatura foi compreendida como um remédio capaz de libertar o indivíduo tanto da subordinação às autoridades quanto do obscurantismo religioso. O papel das obras literárias seria, pois, o de contribuir para a conquista da liberdade e da responsabilidade. Com o despertar da Modernidade, por sua vez, o poder da literatura foi entendido como um remédio não para os males da sociedade, e sim para a inadequação da língua, ou seja, à literatura caberia corrigir os defeitos da linguagem. Sob a perspectiva moderna ou mesmo modernista, a literatura costumava, aliás, tornar-se uma espécie de filosofia, na medida em que ultrapassava os limites da língua corriqueira. Compagnon destaca, por exemplo, a concepção de Bergson segundo a qual “se a inteligência conceitual falha ao desposar a vida, a literatura, pela intuição e simpatia, sabe restituir o movimento” (COMPAGNON, 2009, p. 37).


Se, nos três momentos acima sintetizados, foram delineados poderes positivos da literatura, algo distinto acontece na Pós-modernidade, quando se verifica a ênfase ao “impoder sagrado” (COMPAGNON, 2009, p. 44) da literatura, cujos usos sociais, morais, pedagógicos e inclusive linguísticos têm sido desautorizados por teóricos e escritores. Para Compagnon, essa postura, que coloca a literatura como nada além do exercício sobre si mesma, “pode ter motivado o conceito degradado da leitura como simples prazer lúdico que se difundiu na escola no fim do século [XX]” (COMPAGNON, 2009, p. 43).


Na sala de aula, o professor, ao ouvir de seus alunos literaturapara quê?, possuiria, portanto, um leque de respostas instigantes, as quais demonstram que, há séculos, tal indagação fomenta uma série de debates. Embora não estejamos na era clássica, nem na romântica nem na moderna, retomar o passado pode ajudar os jovens a não se sentirem tão sós em suas inseguranças e a entenderem que, historicamente, a literatura assumiu diferentes poderes, teve sua força caracterizada de variados modos. A retomada histórica, por outro lado, talvez venha a corroborar o contraste entre um passado em que foram atribuídos poderes positivos à literatura e um presente em que se manifesta a descrença em relação à pertinência dela para a vida. Vale ressaltar, porém, que, diante dessa pouco esperançosa conjuntura pós-moderna na qual nos inserimos, Compagnon propõe uma passagem do descrédito e da renegação à restauração e à afirmação do poder positivo da literatura. Por meio do elogio da literatura, seria possível “protegê-la da depreciação na escola e no mundo” (COMPAGNON, 2009, p. 45), uma depreciação que certamente é sentida por parte do corpo discente e que pode levá-lo a adotar a cômoda postura de anular a leitura e o estudo de textos líricos, narrativos e dramáticos.


Contra o niilismo reinante, Compagnon sustenta que devemos ler e estudar a literatura porque ela “oferece um meio [...] de preservar e transmitir a experiência dos outros, aqueles que estão distantes de nós no espaço e no tempo, ou que diferem de nós por suas condições de vida” (COMPAGNON, 2009, p. 47). E também porque ela, mais do que a filosofia, a sociologia e a psicologia, possui a força de nos desconcertar, incomodar, desorientar, desnortear, à medida que percorre dimensões negligenciadas por outros discursos e, assim, esclarece certas motivações humanas.


Em suma, a literatura seria “um exercício de pensamento; a leitura, uma experimentação dos possíveis” (COMPAGNON, 2009, p. 52). Mas só a leitura literária é capaz de nos iniciar no mundo, de nos desvelar nuances da existência?, provavelmente indagarão os estudantes. Mas será que precisamos reclamar tal privilégio, exigir tal exclusividade?, podemos contra-argumentar. Sem dúvida, não. Afinal, “Querer demais é correr em direção ao fracasso” (COMPAGNON, 2009, p. 47).


O professor e pesquisador francês traça todo esse percurso para, enfim, chegar à conclusão de que sua atividade de ensino será uma aposta na literatura, uma confiança no valor das obras literárias. Que essa aposta e essa confiança estejam nas salas de aula, para que os estudantes percebam como a fragilidade “torna a literatura desejável” (COMPAGNON, 2009, p. 47).




Daiane Carneiro Pimentel é professora da FACISABH e do Colégio Loyola, com mestrado e doutorado em Estudos Literários pela UFMG. Atua principalmente nos temas: fragmentação da narrativa, espaço literário, modernidade, vanguardas, relações interartísticas, livro e obra. Escreve mensalmente na Ponte, onde assina a coluna Literatura, educação e cidadania global.

Email: d.cpimentel@yahoo.com.br.




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Referência


COMPAGNON, Antoine. Literatura para quê? Trad. Laura Taddei Brandini. Belo Horizonte: UFMG, 2009.