“Metodologias Ativas”: uma expressão da moda ou uma demanda urgente?

Por Liliane Rezende Anastácio (UEMG)



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Constantemente nos deparamos com discursos prolíficos em afirmar que estamos em um mundo de rápidas mudanças… e com o setor educacional não poderia ser diferente. Os assuntos sobre educação também trazem essa evolução ao longo do tempo. “Metodologias Ativas” é uma expressão em moda e que vem aparecendo com grande frequência em textos relacionados à educação. Porém, ao contrário do que muitos pensam, o conceito desta expressão já era mencionado em textos de importantes pensadores como John Dewey (1959) e Paulo Freire (1996) por exemplo.


Para José Moran e Lilian Bacichi (2018), as Metodologias Ativas compõem um conjunto de estratégias de ensino que colocam o aprendiz como protagonista da construção do seu próprio processo de ensino-aprendizado. Essa conceituação vai de encontro às ideias de Dewey (1959), que defendia o aprender fazendo (learning by doing) para o sucesso da educação, e às propostas de Paulo Freire (1996), para quem a aprendizagem deve despertar a curiosidade do aluno, fazendo com que este se conscientize do que está à sua volta, questionando o mundo circundante e, dessa forma, construindo conhecimento de maneira transformadora.


O desafio dos educadores atuais é entender como se deve aplicar as Metodologias Ativas e como elas podem contribuir para os processos de ensino e de aprendizado. Para isso é importante ressaltar e reconhecer o importantíssimo papel do professor como mediador do conhecimento. O professor aponta, questiona, planeja e fornece as ferramentas necessárias para que exista aprendizagem, além de colocar o aluno como ser ativo e participante.


Para que as metodologias ativas sejam de fato implementadas dentro da escola, faz-se necessário uma política de formação continuada de professores. Políticas essas que já estão regulamentadas pela RESOLUÇÃO CNE/CP Nº 1, DE 27 DE OUTUBRO DE 2020, a qual trata das diretrizes curriculares nacionais para implementação de Formação Continuada de Professores da Educação Básica e institui a Base Nacional Comum (BNC) para a Formação Continuada de Professores da Educação Básica.


Em seu artigo 4°, a Formação Continuada de Professores é referida como “componente essencial da sua profissionalização, na condição de agentes formativos de conhecimentos e culturas, bem como orientadores de seus educandos nas trilhas da aprendizagem, para a constituição de competências, visando o complexo desempenho da sua prática social e da qualificação para o trabalho”. Para tanto, essa formação continuada, para ter o impacto esperado, deve apresentar algumas características, dentre elas o uso de Metodologias Ativas de aprendizagem.





Nesse paradigma metodológico, o professor é o facilitador do processo que pode acontecer individualmente ou em pares através de atividades como “a pesquisa-ação, o processo de construção de materiais para as aulas, o uso de artefatos dos próprios discentes para reflexão docente e o aprendizado em cima do planejamento de aulas dos professores” (BRASIL, 2017).



Assim, além da formação continuada, para que o professor aplique as Metodologias Ativas é preciso que ele faça um bom planejamento, seja um curador do tema e um designer do percurso educacional que pretende percorrer. Saber qual a melhor metodologia a ser utilizada só será possível através de uma avaliação de todo o processo. Desta forma, o professor, que também é mentor, poderá escolher qual das Metodologias Ativas terá sucesso em utilizar, como, por exemplo, Aprendizagem Baseada em Problemas (PBL), Ensino Híbrido, Estudo de caso, Gamificação, Mão na massa/Hands On, Sala de aula invertida e tantos outras que têm o aluno como o centro do processo educacional. Tais ferramentas metodológicas facilitam a comunicação, a colaboração entre os envolvidos, a resolução de problemas do cotidiano e o pensamento crítico individual.


Essa nova maneira de planejar o ensino tradicional está diretamente ligada às dez competências gerais da educação básica contidas na Base Nacional Comum Curricular, a BNCC (2017). Trabalhar a curiosidade, investigar, refletir, fazer análise crítica, usar a imaginação, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas são algumas das habilidades que estão ligadas ao conceito da utilização de metodologias ativas.


Durante este tempo de ensino remoto, implantado em muitos países do mundo devido à pandemia da COVID-19, tem sido comum relacionar as metodologias ativas com as tecnologias digitais de informação e comunicação (TDIC) sem ter-se em conta que o uso dessas tecnologias apenas como forma de aplicação de conteúdo de maneira convencional nada tem a ver com Metodologias Ativas – pelo contrário, podem dificultar o engajamento dos alunos em função da distância física.


Assim, a expressão “metodologias ativas” deixou de ser apenas um modismo para transformar-se numa demanda urgente, sobretudo nestes tempos em que o processo de ensino-aprendizagem precisa utilizar estratégias de engajamento dos estudantes, a fim de que aprendam de forma construtiva e significativa.



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Referências Bibliográficas


BACICH, Lilian. POR QUE METODOLOGIAS ATIVAS NA EDUCAÇÃO?. São Paulo, 06 de dezembro de 2018. Disponível em: https://lilianbacich.com/2018/12/06/por-que-metodologias-ativas-na-educacao/ Acesso em: 28 de janeiro de 2021.


BACICH, Lilian; MORAN, José. Metodologias ativas para uma educação inovadora: uma abordagem teórico-prática. Penso Editora, 2018.


BRASIL. Ministério da Educação. Base nacional comum curricular: educação é a base. Brasília: MEC, 2017.


DEWEY, J. Democracia e educação. 3. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1959.


FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 1996.


Resolução CNE/CP n. 1, de 27 de outubro de 2020. Dispõe sobre as Diretrizes Curriculares

Nacionais para a Formação Continuada de Professores da Educação Básica e institui a Base Nacional Comum para a Formação Continuada de Professores da Educação Básica

(BNC-Formação Continuada).Brasília, DF: Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Comissão Plena. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/docman/outubro-2020-pdf/164841-rcp001-20/file#:~:text=CONSELHO%20PLENO-,RESOLU%C3%87%C3%83O%20CNE%2FCP%20N%C2%BA%201%2C%20DE%2027%20DE%20OUTUBRO%20DE,(BNC%2DForma%C3%A7%C3%A3o%20Continuada). Acesso em: 28 de janeiro de 2021.