O que perde a educação com a ausência da poesia?

Por Márcia Eliza



Fonte: canva.com


O que perde o a educação com a ausência da poesia?


A maioria de nós, formada por uma estrutura escolar tradicional e pouco criativa, acostumou a se relacionar com a poesia de forma bastante estigmatizada. Infelizmente, somos relativamente poucos os despertados por ela e para ela. Ainda somos uma minoria a perceber que a poesia nos traz enormes ganhos com o seu convívio: ganhos em proveito da educação, que está a serviço do desenvolvimento humano.


Um estereótipo a ser constantemente derrubado é a grande máxima de que poesia é difícil ou de que a poesia somente é acessível a decifradores de textos muito distantes da comunicação cotidiana. Em meio a muitas “teorias avós” que herdamos – para utilizar as palavras de Mario de Andrade em Paulicéia desvairada – consta aquela que preconiza que poesia é somente para os “letrados”! Que está mais para uma escala elitista, cujo público é formado por seletos literatos e imortais ocupantes da cadeira mais solene da academia.


A estranha ideia de gostar de poesia – “esse gênero que ninguém entende” (outro estigma) – se não confere um status no mínimo estranho, dá a seu leitor a fama de chato, pedante ou mesmo de lunático. Por muito tempo, sustentamos a crença de que a poesia agradava somente àqueles e àquelas que vão pela contramão da realidade, ou seja, as pessoas alheias, os chamados moradores das ‘torres de marfim’. Noutra circunstância, o contato com o gênero consiste em obrigação: ou lemos poesia para não reprovar na disciplina de literatura ou forçam-nos a engolir goela abaixo versos e rimas cobradas na lista de leitura para o vestibular.


Acontece que a poesia é mais forte que estigmas e estereótipos. Inteligentemente, ela encontra formas para realizar seu propósito fundamental: o ganho da libertação. Sua verdadeira acepção independe da ingênua tentativa de restringi-la a um estilo ou a uma escola literária. Como bem lembra a sabedoria do poeta e escritor mexicano Octavio Paz, “a poesia é conhecimento, salvação, poder” e “revolucionária por natureza”. Assim, revela-se completamente autônoma, independente de teorias, compartimentos ou normas. A poesia é diversa, democrática e encontrada em toda parte: na música, no movimento, nos olhos de quem a descobre, na voz de quem a profere, na letra de quem a escreve. A poesia está nos campos. A poesia está nas ruas e nas casas; está misturada à maioria das gentes e também solitária sob forma de contemplação.


O gênero poético é consciente da pequenez das compartimentações e, corajosa e irreverentemente, destitui o ditame de todo e qualquer tipo de concepção imutável de beleza. Outro ganho dado pelo convívio com a poesia! Como arte, dispõe-se espontânea e generosa quando dela queremos nos servir para que consigamos recobrar o gosto plural de nossas vidas; quando com ela desejamos conhecer uma compreensão renovada do mundo. Para tanto, há que se permitir abertura para suas propostas de descondicionamento à mesmice.


No cenário da escola tradicional, treinaram-nos com muita insistência à aprendizagem compartimentada dos assuntos. Fomos condicionados a uma forma estanque de lidar com as disciplinas, sem nunca contar com um estímulo eficaz para a integração das informações recebidas. A desconexão entre as matérias escolares sempre foi obstáculo para a verdadeira apropriação dos conteúdos. Como consequência disso, os aprendizados raramente cumpriram sua função basilar de se tornarem saberes para a vida. Qual a razão de o ensino da gramática, da biologia, da matemática, da química, da história acontecer de forma desconectada do amplo universo das artes? Por que o contato com a esfera da expressão artística – domínio cuja amplidão tem a propriedade de contemplar todos os conteúdos – também se dá de forma desvinculada das demais disciplinas? O que o ensino perde com abordagens tão estanques dentro das escolas?


Sabemos que a inserção da poesia nas disciplinas da grade curricular é tarefa desafiadora. É preciso a constância do olhar renovado, da boa vontade e da coragem de libertarmo-nos dos nossos condicionamentos, das nossas técnicas engessadas e de nossas crenças. Partimos quase por uma zona experimental, o que por vezes é tarefa árdua! Um poema na aula de química pode ou não causar o efeito esperado! Como falar de Drummond no ensino sobre átomos, por exemplo? Ou no ensino dos elementos da tabela periódica? Para inspirar o interesse sobre o cálcio, o zinco, o potássio, nós lemos o poema “Sentimental” inteiro ou somente servimos na aula os versos “Ponho-me a escrever teu nome/com letras de macarrão”? Qual o real desejo da saciedade? Consumir o alimento rico em sódio ou fantasiar com a pessoa amada diante da “sopa que esfria”? Como seria uma aula de biologia se iniciada pelo verso “Vem como estás, metade gente metade universo”, de Cecília Meireles? Numa discussão sobre empuxo, por exemplo, fenômeno em que ocorre a aparente perda do peso corpóreo na água, poderia a aula de física ter o ganho da leveza e da intensidade com termos poéticos profundos e ao mesmo tempo tão diáfanos?

Neste cenário escolar mais renovado e criativo, provavelmente os alunos possam apresentar reações intrigadas e até mesmo imprevisíveis. Mesmo assim, a introdução da poesia no ensino das disciplinas talvez os convide a descondicionar a forma com a qual direcionam sua atenção para a aula, pois a abordagem já é inusitada.


Não inserir a poesia no ensino de toda e qualquer matéria consiste na perda de muitos aprendizados. Dentre eles, o ganho da criatividade, da beleza e da inspiração como fatores fundamentais para que seja despertado um interesse mais genuíno ao conteúdo transmitido. Por sua vez, se os assuntos forem abordados pela via do plural, pelo norte do diversificadamente poético, um dia os conteúdos escolares verdadeiramente cumpram sua função mais primordial: tornarem-se saberes para a vida, no propósito do desenvolvimento humano.


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Bibliografia:

Carlos Drummond de Andrade. Alguma poesia. Companhia das letras, 2013.

Cecília Meireles. Mar absoluto e outros poemas. Poesia completa. Editora Nova Fronteira, 2001.

Edgar Morin. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Editora Cortez, 2013.

Mario de Andrade. Paulicéia desvairada. Poesias completas. Editora Nova Fronteira, 2013.

Octavio Paz. O arco e a lira. Editora Nova Fronteira, 1982.