Pelo direito à educação


Akemi Miqueline Takahashi

Na ebulição e velocidade que as coisas acontecem na escola, temos que dar tempo, parar, sentir e fazer essa experiência de alcançar o que os olhos não veem.



Pensar a Educação Básica e os seus desafios supõe promover uma discussão que extrapole os muros da escola, não somente dialogando com outras instâncias como a universidade, dando fundamentação teórica sobre assuntos tão importantes como ensino, aprendizagem e equidade social, mas também dando voz aos sujeitos envolvidos no processo escolar, evidenciando suas especificidades e demandas próprias.


O diálogo entre escola e universidade, ainda que modesto, tem sido extremamente útil, favorecendo a produção de pontes muito profícuas ao desenvolvimento dessas instituições educativas. Exercemos em nossas práticas pedagógicas uma fusão de todos os nossos estudos acadêmicos, pesquisas, concepções e práticas que vão se aperfeiçoando ao longo da vida, sobretudo na aprendizagem e nas trocas com nossos estudantes e/ou com nossos pares, colegas de profissão. Após a conclusão da graduação, encontramos na pós-graduação momentos reflexivos, que nos permitem examinar a prática em diálogo com a teoria. Muitos municípios viabilizam aos seus servidores a formação em serviço, que acredito ser essencial na atualização profissional e na formação de docentes que estão antenados com as novas demandas da sociedade.


O Mestrado Profissional também tem essa característica de contribuir com a educação, na interface com a escola e na produção de conhecimentos e aperfeiçoamento profissional. Para exemplificar, citamos o PROMESTRE, que é o Mestrado Profissional em Educação da UFMG. Dentre os seus objetivos, ressaltamos a articulação da pesquisa científica e acadêmica à prática escolar, buscando a resolução de problemas, principalmente os vividos nas redes públicas de ensino. É fundamental ter esse espaço de escuta e trocas da academia, o pensar juntos, à luz de bibliografias que dão conta de fazer essa conexão, essa ponte com experiências concretas vivenciadas nas escolas, o que ocorre por meio de discussões que não irão ficar empoeiradas e guardadas em bibliotecas, mas que estarão sendo colocadas rapidamente em prática pelos mestrandos oriundos do programa.


A impressão que tenho é que, quando estamos mergulhados na vida escolar, encontramos já formatado o que temos que cumprir no ano, quais as habilidades devemos trabalhar, índices apontando fracassos e/ou avanços dos estudantes. Acredito que precisamos emergir e respirar, buscar clareza das ideias para saber o que fazer com todas essas informações, pensando, por exemplo, em questões como: “Onde encontro o meu estudante? O que ele gosta? Por quais vivências está passando? O que é importante para ele (não para mim)? Precisamos, no lugar de ver números, enxergar nomes, pessoas, crianças. Precisamos humanizar a educação. E nem sempre temos essa lucidez para conseguir ver que, como dizia Saint-Exupéry no livro “O pequeno príncipe”, o essencial é invisível aos olhos.


Na ebulição e velocidade que as coisas acontecem na escola, temos que dar tempo, parar, sentir e fazer essa experiência de alcançar o que os olhos não veem. E quando estamos cara a cara com o que temos de mais precioso, “nossas crianças”, aí sim, tudo vale a pena! Não existem culpados, certamente as intenções envolvidas nos contextos escolares são as melhores possíveis. Mas enxergar os sujeitos e não deixar que sejam invisibilizados pela escola e pelos currículos é primordial para pensar a educação de qualidade e equidade social a que todos têm direito.

Penso que a escola tem que ser esse lugar de abertura e diálogo. Lugar de experiência e de sensibilidade. Nas palavras de Larrosa (2016, p. 34), trata-se de “cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece”. Em linhas gerais, podemos dizer que a escola pode e deve ser a ponte que estabelece conexões, ora com a universidade, ora com os educandos. E, para ouvir, antes precisamos deixar de lado um pouco as nossas certezas e convicções pedagógicas e dar voz às crianças, enxergá-las com todas as suas especificidades, com todo o seu universo cultural, dando autonomia e protagonismo a elas. Podemos transitar em um caminho desconhecido, correr riscos, mas tê-las sempre presentes em nossas ações e pensamentos. Morin (2001) discursa sobre isso quando diz que devemos educar para enfrentar as incertezas. Aprender a navegar no oceano do imprevisto, porque a incerteza faz parte da história humana e o futuro permanece aberto e imprevisível.


Garantir uma educação de qualidade inclusiva e equitativa é um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), o que significa promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos. E para isso precisamos ser tocados e modificados. Sobre esta necessidade, Larrosa (2016) aponta a importância de estarmos atentos, abertos, receptivos e expostos para as possibilidades de sentir, entender, apreender e criar espaços que podem nos afetar e transformar. Assim poderemos contribuir para uma educação capaz de conferir conhecimentos e habilidades necessárias para o surgimento de sujeitos autônomos, protagonistas, plurais, inquietos e insubmissos; sujeitos que estão no mundo para conhecer, entender e intervir no meio em que vivem.



Akemi Miqueline Takahashi é professora da educação básica, mestranda em Educação pelo programa PROMESTRE/FAE/ UFMG e colunista da Revista Ponte na sessão Pedagogias de Transformação Social.


Contato: akemi.takahashi@edu.pbh.gov.br




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Bibliografia:

LARROSA, Jorge. Tremores. Escritos sobre experiência. ANTUNES, Cristina; GERALDI, João Wanderley. Belo Horizonte: Autêntica, 2016.

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 3ed. São Paulo: Cortez: Brasília, DF: UNESCO, 2001tp://www.parceirosdaeducacao.org.br/


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