Personalização do ensino: possibilidade ou impossibilidade?

Neste artigo, a professora e pesquisadora Liliane Rezende apresenta o conceito da personalização do ensino, um modelo pedagógico que torna o processo educacional mais pessoal, e discute as dificuldades e possibilidades de se aplicar tal modelo no Brasil.


Fonte: Wix


A personalização do ensino é um modelo pedagógico que propõe o desenvolvimento dos/as alunos/as de maneira individualizada, respeitando as singularidades de cada um/a. Esse olhar atento às particularidades de cada ser humano é objeto de estudo de várias pesquisas, dentre as quais estão os estudos de Ausubel (2003), que descreve: “devido à estrutura cognitiva de cada aprendiz ser única, todos os novos significados adquiridos são, também eles, obrigatoriamente únicos” (AUSUBEL, 2003, p. 02). Em consonância com Paulo Freire (2010, 2011): os estudantes só aprendem quando são estimulados a fazer as suas próprias conexões e, assim, estabelecem o sentido daquele conhecimento para a - e em relação à - sua vida.


A princípio, a teoria por trás da personalização do ensino é encantadora e humanizadora, porém, já de início nos deparamos com algumas questões: como personalizar o ensino na realidade brasileira, que conta com 30 a 40 alunos em cada sala de aula? Como personalizar o ensino se o/a professor/a precisa trabalhar dois ou três turnos e, desta forma, falta o tempo para planejamento?


O fato é que, perante a pandemia da Covid-19, que mudou as estruturas do sistema educacional mundial, muitas consequências surgiram para a educação, dentre elas a volta para o ensino presencial de turmas cada vez mais heterogêneas em relação ao conhecimento. Os estudantes, mesmo fazendo parte de um mesmo ano escolar, evidenciaram diferentes níveis de aprendizagem. Isto porque alguns tinham acesso remoto e conseguiram desenvolver diversas habilidades; já outros, sem acesso às tecnologias digitais e até mesmo sem condições de sobrevivência, não tiveram a mesma oportunidade de desenvolvimento.


Além dos problemas causados pela pandemia, sabemos que não existe uma homogeneidade em relação ao ritmo de aprendizagem dos nossos estudantes. Cada um tem o seu ritmo individual. Porém, o ritmo da turma geralmente é definido pelo professor ou professora, que precisa prosseguir com o cronograma mesmo se o/a estudante está aprendendo ou não. Assim, alguns “ficam para trás” e são penalizados/as em suas notas por serem mais lentos (Bergmann e Sams, 2016).


Entender essas particularidades discentes e fornecer a esse grupo um ensino que gere significado, ou seja, personalizar o ensino, pode ser um caminho capaz de reduzir tais danos educacionais. O ensino híbrido, não só aquele que apenas utiliza o remoto como meio de transferência do que se media no presencial, tem foco na personalização e utilização de tecnologias digitais.

Um projeto de personalização que realmente atenda aos estudantes requer que eles, junto com o professor, possam delinear seu processo de aprendizagem, selecionando recursos que mais se aproximam de sua melhor maneira de aprender. Aspectos como o ritmo, o tempo, o lugar e o modo como aprendem são relevantes quando se reflete sobre personalização do ensino (BACICH, NETO e TREVISANI, p. 51, 2015).


Personalizar o ensino demanda tempo e planejamento, além de exigir uma avaliação contínua do processo e o acompanhamento de perto dos estudantes. A priori, pode parecer impossível implantar a personalização do ensino, mas existem meios para tal, como a utilização das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC).


É importante salientar que as TDICs não vão resolver todos os problemas da educação, mas elas podem colaborar com o processo. Cada professor/a, ocupando o papel de mediar os processos de ensino e aprendizagem, pode utilizar das tecnologias digitais como um aporte e inclusive na implantação das estratégias para a personalização do ensino.


As plataformas digitais podem ajudar neste percurso. Podemos citar como exemplo a plataforma Khan Academy, que permite cadastrar professores/as e estudantes. Nesse espaço, o/a docente pode recomendar vídeos, artigos e ou atividades para cada estudante. A princípio, é possível fazer recomendações gerais e, a partir de uma avaliação contínua durante todo o processo formativo, é possível verificar o estudante que avançou ou não sobre determinado assunto. Desta forma, as professoras e professores podem recomendar pontos específicos para que o estudante desenvolva e atinja o domínio do conteúdo.


Muitas são as possibilidades de uso dessas tecnologias. Contudo, para que a personalização do ensino não seja um modelo impossível, é necessário uma formação permanente de professores/as, sobretudo para a utilização das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação, na certeza de que “os alunos têm duas características básicas que devem ser consideradas para o trabalho educativo: a realidade em que vivem e as diferenças que possuem” (BARROS, 2008, p.12).



COMO CITAR ESTE ARTIGO:


ANASTÁCIO, Liliane Rezende. “Personalização do ensino: possibilidade ou impossibilidade?”, em Revista Ponte, v. 2, n. 8, fev. 2022. Disponível em: https://www.revistaponte.org/post/person-ens-poss-imposs.



Liliane Rezende Anastácio é doutoranda em Educação pela Universidade Nacional de Rosario (Argentina), mestre em Matemática pela Universidade Federal de São João del-Rei, licenciada em Matemática (PUC Minas) e em pedagogia (Centro Universitário de Maringá). Atualmente é professora e chefe do Departamento de Ciências Exatas da Universidade Estadual de Minas Gerais. Escreve mensalmente na Ponte, onde assina a coluna Processos de aprendizagem e tecnologias digitais.




 

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Referências Bibliográficas


AUSUBEL, David P. Aquisição e retenção de conhecimentos: uma perspectiva cognitiva. Lisboa: Plátano, v. 1, 2003.


BACICH, Lilian; NETO, Adolfo Tanzi; DE MELLO TREVISANI, Fernando. Ensino híbrido: personalização e tecnologia na educação. Penso Editora, 2015.


BARROS, Daniela Melaré Vieira et al. Competências para a formação docente: metodologia de uso de ambientes virtuais para o ensino das competências. Paidéi@-Revista Científica de Educação a Distância, v. 1, p. 1-25, 2008.


BERGMANN, J.; SAMS, A. Sala de aula invertida: uma metodologia ativa de

aprendizagem. Rio de Janeiro: LTC, 2016.


FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Revisada e atualizada. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.

______. Pedagogia da autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2010.