Por que gosto da experiência do ensino remoto

Neste relato, a professora e pesquisadora Ana Elisa Ribeiro compartilha conosco suas experiências no regime de Ensino Remoto Emergencial (ERE). A autora apresenta as vantagens que encontrou nessa nova realidade, sem, no entanto, deixar de oferecer uma visão crítica das múltiplas vivências desse novo regime. Ana Elisa salienta os impactos do ERE nos estudos em educação e tecnologia no Brasil, fazendo um convite aos educadores para uma reflexão qualificada acerca do tema.


Fonte: Pexels



O Ensino Remoto Emergencial ou ERE, como foi oficialmente chamado na instituição pública em que atuo, teve início em agosto de 2020, quatro meses depois da suspensão repentina das aulas “presenciais”. Para a maioria esmagadora de nós, professores e estudantes, parecia uma espécie de abismo no qual nos jogaríamos sem a menor ideia da profundidade e dos perigos lá embaixo. A despeito desse medo, dessa desconfiança e da terrível e incômoda sensação de despreparo, saltamos. Aliás, a maioria foi instada a saltar, uma vez que as instituições, quando tinham alguma condição, convocaram ao retorno da única maneira possível então: on-line. E ainda assim, só era possível de fato para parte dos corpos docente e discente. Foi necessário investigar e buscar parte dos estudantes, em suas situações socioeconômicas e tecnológicas precárias. Nem todos, de qualquer modo, conseguiram se adaptar ao ERE, ao menos entre os alunos e as alunas. Aos professores e professoras não foi dada opção.


Saltamos naquele abismo, mas... ao contrário do que muita gente supunha, a meu ver, planamos. Só foi queda livre no início, passando logo a um voo desajeitado e, depois, ao cruzeiro. Foi custoso, é certo, mas contávamos com uma capacidade que, afinal, foi o que nos valeu: a de aprender.


E é justo na escola que devemos mais confiar nisso. E aprendemos, todos e todas, a despeito de teorias deslumbradas sobre jovens digitais e outras igualmente equivocadas sobre professores eternamente ineptos. Naquela circunstância, se ninguém de nós sabia ao certo o que fazer, como proceder com aulas e interações, o conjunto das pessoas, em seus diferentes papéis, aprendeu junto, ainda que estejamos sempre longe de aprender tudo.


Gostei, lamento


Não é exatamente tranquilo assumir ou admitir que gostei da experiência do ERE. Parece ainda uma espécie de traição ao ensino “presencial” ou alguma inconveniência constrangedora. No entanto, doa a quem doer, admito que gostei e gosto. E quando penso nas razões que me permitem tirar esta conclusão (que não guardo apenas para mim, lamento), consigo elencar alguns motivos, entre os quais não está “não gostar de trabalhar”, o mantra do ódio contra professores neste país. A eles:


- As disciplinas que ministro dizem respeito à leitura e à produção de textos. No ERE, pude solicitar leituras, debates e produções textuais que operavam com prazos mais realistas, condições de pesquisa mais amplas, recursos tecnológicos mais diversos e, por isso, obtive resultados muito mais complexos, ao mesmo tempo que mais interessantes e multiletrados (para mencionar a abordagem que vimos discutindo desde o começo dos anos 2000 e sobre a qual se assenta a Base Nacional Comum Curricular, documento vigente no Brasil, sem eximi-lo de críticas, claro).


- Os materiais de referência, links, pdfs, vídeos etc. que empreguei em minha disciplina foram muito mais ricos do que os que eu usava na sala de aula física. Simplesmente porque na sala de aula física não costumo ter recurso algum, exceto papel e caneta. E os textos do mundo, convenhamos, há muito não são feitos só assim.

- Minhas aulas não tinham mais 50 minutos ou, quando geminadas, o dobro disso. Elas eram contínuas, isto é, dividi a matéria em ciclos de duas ou três semanas, ao final dos quais os encontros síncronos faziam sentido, provocavam a interação e mesmo a curiosidade de quem estava ali para participar, e não apenas para me ouvir em monólogo. Cada ciclo começava com o lançamento ou a “postagem” de uma atividade/tarefa, organizada e claramente instruída, e terminava com o compartilhamento de produtos e comentários, em um encontro virtual. Entre uma coisa e outra, mantínhamos interação contínua por meio de fóruns, o que nos sustentava sempre numa discussão que quase não se encerrava. Nem por isso me senti trabalhando 24h, embora essa fosse uma possibilidade (perigosa e indesejada). Com autodisciplina e organização, consegui distribuir minha atenção ao andamento das atividades, sem exageros e num regime menos fragmentado e interrompido do que o da escola “presencial”.


- Li as produções dos estudantes com afinco e dei feedbacks no sistema acadêmico usado pela instituição. Lá, controlei muito bem as tarefas, os prazos, as referências disponíveis e os encerramentos de prazos. Não houve muito espaço para “enrolação” ou para alegações sobre atividades que não fossem feitas. É claro que tive grande sensibilidade para o momento que todos e todas vivíamos, ofereci sempre condições negociadas e me mantive atenta a pedidos de socorro eventuais, mas o registro organizado e transparente das atividades me auxiliou na hora de finalizar a matéria.


Razões e impressões


O que não quero também ficou claro. E é bom esclarecer o que não defendo. Não defendo a privatização da educação e nem a entrega da escola a meia dúzia de empresas multinacionais de tecnologia. Usei, todo o tempo e tanto quanto possível, os sistemas públicos instalados na instituição. Não desejo sociabilidades apenas virtuais aos estudantes, em especial aos mais jovens, embora ali elas também ocorram. Também não defendo que sejamos explorados e exploradas, trabalhando 24h, sem uma organização inteligente e justa do tempo e de nossas condições de trabalho. De início, fui obrigada pelas circunstâncias a investir em equipamento e banda larga, jamais sendo ressarcida por isso, sequer reconhecida por minha atuação sempre disponível e positiva quanto à experiência. No entanto, como servidora pública, sei que estive em condição relativamente interessante, podendo escolher o que e como fazer, participando de debates coletivos e tomando decisões colegiadas. Infelizmente, nem todos os colegas de outras redes tiveram ou terão essa condição.


O ERE teve um efeito importante para nós, as pessoas que estudam e pesquisam educação e tecnologias há duas ou três décadas, e não em qualquer lugar, mas na América Latina. Hoje, depois do medo e dessa experiência generalizada, compulsória, sim, mas bastante ampla em termos de território, níveis de ensino e precariedades variadas, talvez seja possível ao menos conversar com mais colegas a fim de desenhar cursos interessantes, mais inteligentes, que aproveitem o melhor de dois mundos, mundos esses necessariamente interligados.


A visão competitiva entre as tecnologias digitais e suas predecessoras ou uma percepção concorrente de tecnologias educacionais analógicas e digitais precisa cair, extinguir-se, diluir-se na experiência concreta das aulas remotas emergenciais. O “híbrido” já está no mundo e nós o executamos nessa experiência, quando empregamos conhecimentos da aula tradicional a novos elementos ou quando tivemos de desenhar novos regimes de tempo e espaço de aprendizagem.


É melhor que os docentes desenhemos isso bem e agora, antes que o façam por nós aqueles que nada entendem de aulas e de aprenderensinando ou ensinaraprendendo.




COMO CITAR ESTE ARTIGO:


RIBEIRO, Ana Elisa. “Por que gosto da experiência do ensino remoto”, em Revista Ponte, v. 1, n. 6, ago. 2021. Disponível em: https://www.revistaponte.org/post/por-que-gosto-experi-ensino-remoto




Ana Elisa Ribeiro é professora titular do Departamento de Linguagem e Tecnologia do CEFET-MG, onde atua no ensino médio, no bacharelado em Letras e no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens. É doutora em Linguística Aplicada pela UFMG, licenciada e bacharel em Letras-Português pela mesma instituição. Entre seus livros mais recentes estão Escrever, Hoje e Multimodalidade, Textos e Tecnologias, ambos pela Parábola Editorial. É coordenadora do projeto de extensão Aula Aberta, que teve intensa atuação durante a pandemia, gerando o livro gratuito Tecnologias digitais e escola (Parábola, 2020).






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