Por que não gosto de corrigir

Neste relato, a professora e pesquisadora Ana Elisa Ribeiro apresenta reflexões sobre a prática de correção de textos como recurso didático na Educação Básica. Em oposição à ideia tradicional de “correção”, frequentemente cobrada do docente na escola regular, a autora propõe uma nova forma de intervenção – por meio de comentários – sobre as produções textuais dos alunos e alunas. Nessa perspectiva, o que está em jogo não é a resolução de problemas no texto, mas a aprendizagem da escrita de forma reflexiva e autocrítica, a partir da interlocução estabelecida entre os participantes do processo.


Fonte: Pexels


“Professora, você vai corrigir nossos contos?” Titubeei. Fiquei entre o dizer um sim constrangido e incomodado e o dizer um não que exigiria uma explicação. Abri a boca como quem fosse falar, mas só fiz um gesto de mais ou menos com as mãos. Assim, assim, porque eu estava com pressa, talvez alguma preguiça, mas eu não queria dizer o que não iria fazer. Não queria corrigir; efetivamente, o que eu pretendia fazer era comentar. Mas que escola regular entende isso? Talvez sequer a minha, que é um espaço onde me sinto livre e autônoma como profissional.

Deixei barato. Fica assim: ela acha que vou corrigir. Depois explico que não é bem o caso. Por quê? E toda aquela história da caneta vermelha, dos traumas, do autoritarismo, da produção de textos em lugar da redação sem contexto? Era isso e não era. O fato é que me incomoda, de saída, quando a estudante pergunta – e até me cobra – se eu vou corrigir um texto, ainda mais aquele, tão pensado, refeito, revisado, discutido coletivamente.


É que quando a mocinha disse “você vai corrigir”?, me deu a triste impressão de que ela já acha que está tudo errado. Ou que pode estar. Até de que ela não precisa se preocupar em entregar algo bom, porque, afinal, meu trabalho é corrigir, aperfeiçoar o que ela não fez, fazer por ela, em alguns casos. É uma mistura de resignação, de quem entrega o texto, e certa confiança, em que a parte refinada do serviço cabe a mim. E eu, cá do meu lugar social de professora, fico com a tarefa de ler textos ruins aos montes, infinitamente, porque é isso mesmo, e eu preciso fazer que eles sirvam para dar notas. Ingrato, não?


Desinventando a roda


A discussão não é nova. Não ando inventando a roda hoje. A mudança de paradigma sobre ver o texto como processo remonta a décadas. A noção de que os textos solicitados pela escola precisam fazer sentido beira já o clichê. Uma pena é que nem todas as coisas sejam coerentes em nosso dia a dia, em nossas práticas como docentes, em especial na educação básica.

Não gosto de corrigir. Talvez o fato de eu também atuar como revisora de textos no contexto editorial me ajude a separar as coisas. Aí, os livros chegam com probleminhas que preciso sanar. É resolutivo, afinal. Não preciso dar aulas disso; na maior parte das vezes, sequer preciso explicar as alterações. Vez ou outra, comento com uma colega sobre alguma dúvida, um item opcional, mas a tarefa óbvia é tornar o texto o mais próximo possível da perfeição – gramatical, literária ou o que seja, e isso também é relativo. Pode ser necessário conferir algo com o autor ou a autora, mas não passam de meia dúzia de situações. E geralmente minha palavra não é a última, nessas relações geralmente assimétricas entre autor(a) e revisora, em que a autoridade máxima não sou eu. O que faço leva o nome sonso de sugestão, e o que é incorporado – emendado, melhor dizendo – fica sendo mérito de quem assina a capa. Ninguém saberá.


Na escola, não. O que esperam de mim é uma autoridade que eu gosto de não ter. Pode ser que eu saiba mais sobre textos, registros, regras, mas a ideia não é apenas resolver; a ideia é ensinar, fazer que aprendam, mostrar, discutir, fazer que entendam, que se acheguem – da língua. Minha ansiedade grande é ver naqueles olhares um clique, uma aproximação a uma língua que é deles e delas, ainda que dependa de institucionalidades e acessos pouco democráticos para acontecer.


Por isso, prefiro não corrigir, mas não no sentido de deixar passar. Não é isso. A ideia é comentar, a fim de que aquelas pessoas se dignem a olhar seus textos uma segunda ou terceira vez, que prestem atenção a ele, que o sintam como seus, que respeitem o tempo que dispensaram para dizer, que atentem ao que disseram ou ao que não queriam dizer, mas disseram. Minha vontade é que revejam, que possam se ler como se fossem um outro, capazes da autocrítica, da autorrevisão, da responsabilidade; e mais: do manejo, do domínio, da manipulação efetiva, das palavras e do discurso, de preferência.


De segunda


A adolescente me entregou um texto já rebatido. Não era uma entrega de primeira, como se os textos fossem cheques em branco ou a nota fiscal que sai da maquininha. O texto fora visto, inclusive por uma ou duas colegas dela. Havia nele uns rabiscos a lápis e a caneta, dúvidas que talvez tenham sido sanadas depois do diálogo com os pares. Minha entrada no circuito era para avalizar o trabalho delas, para dizer algo que elas esperavam de mim como autoridade (eram seus olhares), mas também para interpelar o texto e a revisão que fizeram. O que eu quero – e acho que devo – é fazer perguntas sobre aqueles textos que, eventualmente, ainda apresentarão lacunas, incoerências, inconsistências e necessitarão de uns ajustes de pontuação, geralmente é isso. Vou lá dizer que as vírgulas não dizem respeito à respiração, desse jeito inconsequente que alguns e algumas aprendem. Sempre rimos disso. Digo: leiam, leiam a frase. Repito: onde está o sujeito? Este verbo diz respeito a qual sujeito? E elas entendem, depois de anos, para que serviam certas aulas. Mas só agora, só depois. Elogio a autora, mas também as revisoras: perspicaz você.


Uma resposta


Não, querida, não vou exatamente corrigir. Até porque, de antemão, não sei se há algo errado ou tão completamente errado que mereça sua pergunta tão resignada. Vou ler. Depois disso, talvez eu tenha dúvidas, sugestões, comentários, e aí você, autora que é, poderá me dizer se é isso, se pode ser assim, se era o que você realmente queria dizer, se faltou ou sobrou algo. Você mesma dirá. Então eu quero comentar. Você me estende o papel com tanta confiança nas pontas dos dedos que eu fico pensando na alegria que teria sido se eu pudesse ter uma interlocutora quando tinha a sua idade. Mas talvez eu devesse pensar melhor: em que condições minha professora trabalhava?


Ensinar a escrever é uma tarefa quase impossível. Ela é sabotada de todas as maneiras; não é o interesse prioritário dos currículos; não pode ser feita com o vagar necessário, nem com a atenção imprescindível; precisa disputar espaço com muitas outras atividades mais consumistas e consumidoras. Ensinar a escrever na escola regular é lidar com a leitura inviável: centenas de meios papéis escritos às pressas, sem consulta, sem debate, ao ritmo dos ponteiros do relógio. Diante da precariedade das condições em que geralmente trabalhamos, solicitamos dois textos em um ano e damos retornos silenciosos a jovens que aprendem, mês a mês, infelizmente, que escrever é se livrar de cerca de trinta linhas argumentativas.


Ela me estendeu a folha. Peguei, juntei às demais. Pensei: ela ao menos tem interesse no retorno, mas vai se surpreender com minhas perguntas, e com as respostas que ela mesma dará.



  • Esta publicação é fruto de uma parceria com o projeto de extensão Aula Aberta, do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG). O projeto Aula Aberta tem a finalidade de oferecer aulas e palestras abertas à comunidade, para qualquer pessoa que se interessar pelo tema a ser debatido entre palestrantes convidados e público.



COMO CITAR ESTE ARTIGO:


RIBEIRO, Ana Elisa. “Por que não gosto de corrigir”, em Revista Ponte, v. 2, n. 10, ago. 2022. Disponível em: https://www.revistaponte.org/post/por-que-não-gosto-corrigir




Ana Elisa Ribeiro é professora titular do Departamento de Linguagem e Tecnologia do CEFET-MG, onde atua no ensino médio, no bacharelado em Letras e no Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens. É doutora em Linguística Aplicada pela UFMG, licenciada e bacharel em Letras-Português pela mesma instituição. Entre seus livros mais recentes estão Escrever, Hoje e Multimodalidade, Textos e Tecnologias, ambos pela Parábola Editorial. Ana Elisa também é coordenadora do projeto de extensão Aula Aberta.



 

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Referências livres


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