Por uma educação igualitária e antirracista

Neste artigo, a professora Liza Iole da Silva Caetano reflete acerca da presença tardia do preconceito e do racismo na atualidade. Ela demonstra que a falta de conhecimento e o processo de imposição da cultura ocidental contribuem para o silenciamento de conhecimentos de outros povos. Além disso, ela frisa que a educação precisa proposicionar reflexões de uma perspectiva decolonial e intercultural para seus alunos.


Fonte: Pexels.


Hoje convido vocês a refletirem comigo sobre um assunto importante. Sim, é uma discussão urgente: o preconceito e o racismo, os quais não podem mais persistir!


Vamos lá! Exteriorizo, para juntos pensarmos, algumas provocações. Em 2019, a famosa marca de cosméticos SEPHORA anunciou o fechamento, por um dia, das lojas nos EUA, de modo a treinar seus funcionários sobre a diversidade e a inclusão, com o intuito de prepará-los para o atendimento que respeite às diferenças.


Ocorreu este fato logo após uma vendedora acionar os seguranças para comprovar se a cantora afro-americana SZA não estaria surrupiando algum cosmético. Parece que a vendedora desconhecia que a artista não precisaria fazê-lo, pois foi uma das dez cantoras mais bem pagas de 2021, segundo a People With Money, acumulando um patrimônio líquido estimado em $185 milhões de dólares. Mas parece que, para os funcionários, o seu fenótipo chega primeiro; a sua cor e seus traços negroides foram conclusivos, para a vendedora, de que ela não teria condições de pagar pelos cosméticos e que, logo, cometeria um furto.


Vários outros exemplos poderiam ser citados neste artigo, porém expus apenas esse para afirmar que o racismo acontece primeiro pela cor, independente de o sujeito alvo do racismo ser pobre, rico ou milionário, analfabeto, estudante ou doutor, desempregado, autônomo ou funcionário de uma multinacional, condenado, sem antecedentes criminais ou juiz.


O extrato bancário, os títulos, o cargo que ocupa não vêm estampados em sua face, mas o fenótipo, este sim! É a sua referência de identidade que, em uma sociedade racista, não há como esconder. Urge a necessidade de formarmos uma sociedade crítica, antirracista e inclusiva, que respeite a multiplicidade, a diversidade e as diferenças.


Nesse sentido, vamos pensar:


Como podemos formar uma sociedade igualitária? Por que os conhecimentos da camada popular dificilmente são reconhecidos? Como tornar a educação pluricultural? Por que pautas como racismo, exclusão, empoderamento, valorização de saberes estão tão presentes nas mídias e nas pesquisas nos dias de hoje?


Essa temática tem atraído os olhares de diversos pesquisadores. Acredito que todo esse movimento, pelo menos no Brasil, é fruto de políticas públicas como o PROUNI, o FIES e a Lei 10.639/2003. Políticas como essas possibilitaram que as “minorias” adentrassem em faculdades, universidades, centros universitários, de modo que assuntos como racismo, diversidade e exclusão fossem discutidos no ambiente escolar.


Esses novos universitários, não satisfeitos com a invisibilidade de conhecimentos históricos vindos das “minorias”, juntam-se em busca da construção de novas epistemologias no campo acadêmico. Como disse o poeta Ferreira Gullar:


A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não têm voz.


Na sociedade, metaforicamente, eles não têm voz. Mas, sim, têm vozes, falam e gritam, mas precisam ser ouvidos, ecoados e ressoados. É perceptível a escassez de materiais e artefatos sobre a história dos colonizados, assim como a seleção do que é encontrado nos arquivos públicos, livros e monumentos. No Brasil e em países da América Latina, é nítida a imposição da cultura ocidental pautada no silenciamento, apagamento da cultura e dos conhecimentos de povos subalternizados.


Situação agravada por questões políticas, como a ordem de Ruy Barbosa, em 1890, de queimar todos os arquivos nos cartórios sobre os escravos para evitar possíveis processos de indenização. A legitimação e valorização dos conhecimentos e as vivências de diversos saberes são dificultadas no ambiente escolar, religioso e social, cujo pensamento dominante é marcado pela lógica colonizadora e racista.


É imprescindível a busca de uma educação na perspectiva decolonial, antirracista e intercultural. Pensar desta maneira em países formados pela lógica colonizadora denota um grande desafio cujas soluções avançam com com dificuldade e lentidão.


A escola é um dos primeiros espaços a reproduzir a exclusão, o racismo, os estereótipos, preconceitos e deslegitimação de conhecimentos, mesmo que de forma não intencional. Urge a necessidade da escola se transformar em um ambiente reflexivo e de afirmação das identidades e de culturas que foram invisibilizadas (cf. Backes, Nascimento, Gomes, Santos, Walsh, Walker).


É necessário promover a reflexão no ambiente escolar para proporcionar uma educação multicultural, pautada na valorização dos diversos saberes. Só assim poderemos superar séculos de atrasos e apagamentos. Dessa maneira, nós, educadoras e educadores, precisamos buscar entender a complexidade por trás do racismo para provocar o pensamento crítico de nossos estudantes, fazendo delas e deles protagonistas da transformação da sociedade, e não apenas meros coadjuvantes. Não coloco aqui um ponto final, mas uma vírgula, pois falaremos mais sobre essa temática nos próximos artigos.



COMO CITAR ESTE ARTIGO:


CAETANO, Liza Iole da Silva. "Por uma Educação Igualitária e Antirracista", em Revista Ponte, v. 1, n. 6, ago. 2021. Disponível em https://www.revistaponte.org/post/por-um-educa%C3%A7-igualit-antirracist


Liza Iole da Silva Caetano é mestra em Educação e Docência pela UFMG, licenciada em Pedagogia e Letras, pós-graduada em ciência da religião e psicopedagogia, ex-bolsista CAPES pelo Programa de Desenvolvimento de Professores da Educação Básica no Canadá. Professora há 10 anos, servidora na Secretaria Municipal de Educação de Ribeirão das Neves desde 2015. Autora do livro “Ribeirão das Neves em Rimas” e do Canal Professora Liza Iole Eternizando experiências



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REFERENCIAL TEÓRICO


BACKES, José Licínio; NASCIMENTO, Adir Casar. Aprender a ouvir as vozes dos que vivem nas fronteiras étnico-culturais e da exclusão: um exercício cotidiano e decolonial. 2011. Disponível: https://www.serie-estudos.ucdb.br/serie-estudos/article/view/110 acesso agosto 2020


FREIRE, Paulo. Educação como Prática da Liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015. p. 3


GOMES, N. L. Relações étnico-raciais: educação e descolonização dos currículos. Revista Currículo sem fronteiras, Porto Alegre, v. 12, n. 1, p. 98-109, 2012. Disponível em: http://www.curriculosemfronteiras.org/vol12iss1articles/gomes.pdf>.

Acesso em: 03 ago. 2020


GULLAR, F. Corpo a corpo com a linguagem. Ponta Grossa (PR): UEPG. Museu/Arquivo da Poesia Manuscrita, 1997.GULLAR, Ferreira. Corpo a corpo com a linguagem,


WALKER, Sheila S. (org.); ANTUNES, Viviane C. (tradução). Conhecimento desde dentro: Afro-sul-americanos falam de seus povos e suas histórias. Rio de Janeiro: Kitabu Editora, 2019.


WALSH, Catherine. Interculturalidad crítica y educación intercultural. La Paz, 2009. Disponível: https://www.uchile.cl/documentos/interculturalidad-critica-y-educacion-intercultural_150569_4_1923.pdf


GOMES, N. L. Relações étnico-raciais: educação e descolonização dos currículos. Revista Currículo sem fronteiras, Porto Alegre, v. 12, n. 1, p. 98-109, 2012. Disponível em: http://www.curriculosemfronteiras.org/vol12iss1articles/gomes.pdf>.

Acesso em: 03 ago. 2020