A prática de meditação como aliada ao processo de Aprendizagem e das relações interpessoais

Neste artigo, as professoras Claudete Robalos da Cruz e Roselaine Guedes dos Santos apresentam uma pesquisa, entre alunos de escolas da rede pública, acerca dos benefícios da prática de meditação para a vida do estudante, desde o âmbito escolar ao individual. Os relatos demonstram uma melhoria na atenção e no desenvolvimento do discente.

Fonte: Wix.


Este artigo é resultante das práticas de um projeto de extensão cujo objetivo geral foi oportunizar aos estudantes da educação básica técnicas de meditação que proporcionam atenção e reconhecimento dos seus sentimentos, emoções e dos processos cognitivos que envolvem o aprender.


Dentre as atividades realizadas, estão a realização de exercícios práticos de relaxamento mental, práticas de respiração, identificação de padrões de pensamentos recorrentes relacionando-os com as emoções, o incentivo à potencialização das emoções, bem como o conhecimento de si e dos outros.


Foi possível apontar, após a realização dessas tarefas, alguns resultados, como o reconhecimento da respiração consciente e seu auxílio para acalmar, a contenção da impulsividade, a geração de atitude e uma ampliação do olhar observador sobre as ações cotidianas.


No entanto, essa prática requer, além da adoção de método diário, o conhecimento sobre o funcionamento cerebral, a relação com nossas emoções e sua influência em nossos comportamentos.


A PRÁTICA DE MEDITAÇÃO NA ESCOLA


A metodologia adotada nas práticas teve como fundamento a laicidade, com ênfase nos aspectos mentais e suas relações com os físicos. Adotou-se o tempo de trinta minutos para a realização da atividade, considerando a possibilidade de surgirem emoções produtoras de agitação em função de tratar-se de elementos novos na rotina da sala de aula (tanto o operador da atividade quanto a própria atividade em si), o que ficou comprovado. Entretanto, após os minutos iniciais, a maioria dos alunos conseguiram relaxar o corpo e atingir algum nível de concentração. Cabe observar que, em alguns casos, houve o alcance do estágio meditativo ou muito próximo deste.


A realização das atividades foi organizada de forma que abarcasse diferentes públicos. Assim, foi definido o calendário para escolas, horários, níveis e professores distintos.


As escolas inseridas no Projeto são uma escola municipal e outra estadual do município de São Borja/RS. É importante observar que as duas instituições estão localizadas em área periférica e, em relação à etapa educacional, as atividades foram realizadas em turmas do sexto, sétimo e nono ano, compostas de alunos com as idades relativamente homogêneas.


A preparação dos jovens para a prática de uma atividade diferente, em teor e forma, daquelas do cotidiano escolar exigiu preparo antecipado das turmas, no sentido de despertar o interesse e, ao mesmo tempo, reduzir a ansiedade sobre o desconhecido, além de oferecer as informações básicas relacionadas aos benefícios desejados.


Um aspecto importante é aquele relacionado à receptividade da proposta pelo corpo diretivo e docente das escolas participantes, deixando exposto que a introdução de práticas novas no cotidiano escolar depende de fatores que vão além da busca do melhor processo de ensino e aprendizagem.


As atividades se desenvolveram com facilidade e, após um breve diálogo de aproximação e tranquilização dos alunos, foram explicadas as etapas a serem executadas, suas funções e efeitos possíveis, com o esclarecimento de se tratar de um exercício mental, e por isso individual.


Durante as execuções foi possível realizar observações acerca do comportamento dos alunos, as quais apontam para as turmas de sexto ano que, com muita tranquilidade, mantiveram o controle do seu corpo por todo tempo, evidenciando alguns casos de relaxamento profundo. Vale observar que nas turmas em que os alunos teriam uma idade maior, houve casos de completa dificuldade de manutenção do controle mental sobre o próprio corpo.


Visando obter as impressões dos alunos sobre as práticas desenvolvidas, os professores residentes realizaram diálogo com os estudantes no sentido de expressarem suas percepções sobre a prática. Dos relatos coletados junto aos professores, ficam confirmadas as observações acima mencionadas:

"Na turma 61, os alunos gostaram muito da atividade, até falaram que seria bom ter outros momentos com meditação. Contudo, depois do dia da atividade, esqueceram-se dela e não a mencionaram mais, mas abordei o assunto com eles em aulas anteriores aos dias de avaliação, para que eles se mantivessem calmos e atentos durante as provas” (Professor A).


Ainda, em diálogo com os docentes e somando-se a isso as observações no momento dos experimentos, foram recepcionados relatos de acolhimento positivo por parte dos alunos. Neste momento, mostra-se relevante salientar o comportamento de alunos que, no cotidiano da sala de aula, poderiam ser vistos com comportamento inquieto e que, por outro lado, reagiram positivamente ao exercício, com visível relaxamento e controle corporal.


No que diz respeito às etapas preparatórias para a meditação, após a orientação quanto à melhor postura, os alunos e alunas foram guiados/as na organização respiratória, seguindo pela tomada de consciência do próprio corpo. Nessa etapa ocorre de modo simultâneo o relaxamento físico e, ao "viajar"(1) pelo corpo, a concentração mental. Na sequência, objetivando dirigir a focalização, sugeriu-se uma frase para que a mantivessem na mente durante a fase final do exercício, a fim de que outros pensamentos ocupassem lugar na mente.


Considerando a manutenção do bem-estar dos alunos, a retomada da objetividade foi dirigida e, ao final da meditação, o grupo foi instruído a realizar suaves movimentos com o corpo. Houve exclamações de contrariedade pelo fim da experiência, o que pode ser considerado uma resposta positiva em relação ao cumprimento dos objetivos aqui propostos.


A realização de atividades de meditação com os jovens estudantes atendidos pelo Projeto de Extensão visou essencialmente proporcioná-los a aproximação com o estado mental ideal para o aprendizado, de modo que os fatores intervenientes nos processos de memorização ocorram de modo menos traumático possível.


Nesse sentido, como explicam Consenza e Guerra (2011), é fundamental que o profissional da educação realize indagação sobre o que, porque e como abordar dado assunto, de modo que este seja reconhecido como significante pelo aluno. Além disso, as metodologias diversificadas na realização das práticas pedagógicas são essenciais para o processo de internalização e “acomodação” do conhecimento. Mas não somente isto: são necessários também um ambiente adequado, que estimule e envolva o estudante na realização das atividades, bem como a eliminação daquilo que possa distraí-lo.


Nesse sentido, concorda-se com Beber, para quem:


“aprender é muito mais que um processo mecânico de aquisição de conhecimento; é um caminho permeado de prazer e trabalho, em que a superação dos obstáculos deve acontecer de forma a proporcionar crescimento intelectual e emocional” (2014, p.145).


Assim, a meditação se apresenta como importante ferramenta que contribui para o conhecimento de si, pois permite o reconhecimento das sensações e emoções, possibilitando também a compreensão dos processos cognitivos e das situações de estresse que envolvem o aprendizado escolar.

Menezes descreve a meditação


“como uma prática de auto-regulação do corpo e da mente; caracteriza-se por um conjunto de técnicas que treinam a focalização da atenção” (p. 277).

Os estudos comprovam que ela auxilia “no gerenciamento e na redução do estresse” (p. 282), diminui a ansiedade e estimula aspectos saudáveis, estando muito associada à saúde mental (GOLEMAN, 1988 apud MENEZES, 2009). Ainda segundo o autor, o aumento da introdução da meditação nos ambientes de ensino são recentes. Os Estados Unidos são os precursores da utilização da meditação sentada e silenciosa, sendo que o crescimento do uso dessas práticas tem que ver com um exercício que visa


“[...] desenvolver e aprimorar habilidades mentais – cognitivas e emocionais – que podem ser benéficas para o desenvolvimento saudável e desempenho mais eficiente [...]” (MENEZES et al, 2012. p.308).


A meditação contribui para o reconhecimento das emoções, para gerenciar estruturas emocionais negativas e fortalecer as positivas. Nesse sentido, é fundamental promover no ambiente escolar emoções que mobilizem entusiasmo, curiosidade, envolvimento, colaboração, respeito - elementos emocionais que compõem a autoavalia descrita por Paulo Freire. Enquanto isso, a ansiedade, a apatia, o medo e a frustração devem ser evitadas para que não perturbem a aprendizagem, pois levam à autodesvalia do educando e a uma compreensão fatalista e determinista do mundo.



 

Das observações realizadas durante a execução dos exercícios e dos relatos recebidos, fica evidenciado que a atividade foi bem recebida pelos/as alunos/as. Porém, ficou esclarecido também que a prática pode ser de grande valia no desenvolvimento da autorregulação mental, desde que tornada como rotina, o que leva à reflexão acerca das discussões sobre meditação e saúde mental entre o corpo docente das instituições de ensino. Especialmente em relação aos cursos de licenciaturas, a proposição de tornar essa prática de concentração e meditação como uma ação acadêmica sistemática poderia resultar na apropriação destas pelos acadêmicos e futuros profissionais da educação.


De outro lado, e de acordo com os autores estudados, a técnica aqui adotada é aceitável e foi bem apropriada pelo público abrangido. Portanto, entendemos que este trabalho contribui para o avanço nas discussões sobre os benefícios da meditação voltada para o desenvolvimento da capacidade de focalização dos professores e estudantes, visando a melhoria dos processos de ensino e aprendizagem.



1- Grifo nosso.



COMO CITAR ESTE ARTIGO:


ROBALOS DA CRUZ, Claudete.; GUEDES DOS SANTOS, Roselaine. “A prática de meditação como aliada ao processo de Aprendizagem e das relações interpessoais”, em Revista Ponte, v. 1, n. 7, out. 2021. Disponível em: https://www.revistaponte.org/post/di%C3%A1r-prát-medit-com-aliad-proces-aprendi-relaç-interpes



Claudete Robalos da Cruz é professora do Curso de Ciências Humanas - Licenciatura na Universidade Federal do Pampa; Atuou como Docente Orientadora do Programa Residência Pedagógica. E-mail: claurobalos@gmail.com



Roselaine Guedes dos Santos é Tecnóloga Ambiental. Discente em Ciências Humanas, UNIPAMPA - São Borja. Pesquisa a meditação como uma ferramenta para tomada de consciência dos processos de aprendizagem. E-mail: rose7866@hotmail.com



Referência Bibliográfica


BEBER, Bernardette. Metacognição como processo da aprendizagem. Revista Psicopedagogia, 31 (95), pg.144-151, 2014.


CONSENZA, Ramon M.; GUERRA, Leonor B. Neurociência e educação: como o cérebro aprende. Artmed, Porto Alegre, 2011.


MENEZES, Carolina Baptista. Por que meditar? A relação entre o tempo de prática de meditação, o bem-estar psicológico e os traços de personalidade. Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Psicologia. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, p. 12-15. 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbefe/v26n3/16.pdf>. Acesso: 09 out. 2019.