No princípio é a oralidade: argumentação no Ensino Fundamental

Nesta resenha, a professora e pesquisadora Marriene Silva apresenta o livro “Escrever e argumentar não é só começar”, de Cláudia Siqueira e Rosana Lucas. A resenhista comenta reflexões apresentadas pelas autoras sobre a importância de se pensar práticas pedagógicas ancoradas na oralidade para o ensino e aprendizagem da argumentação na Educação Básica, já desde o Ensino Fundamental. A partir de ferramentas como o júri simulado e debates em sala de aula, os alunos podem desenvolver habilidades necessárias para construir textos argumentativos, partindo da oralidade para a escrita.



Fonte: Pexels


“Dedicamos este livro à compreensão entre os seres por meio da palavra” Assim as autoras Cláudia Siqueira e Rosana Lucas, professoras do Ensino Fundamental e pesquisadoras, doutoranda e mestra, dedicam seu livro “Escrever e argumentar não é só começar”. Uma bela dedicatória à qual só me detive ao final da leitura, quando folheava o livro refletindo sobre a singeleza com que as autoras tratam o ensino da linguagem, num enlace de teoria e prática. Com o foco mais nesta, mas sem deixar de associá-la aos pressupostos que a embasam, elas dialogam com seus leitores de igual para igual, seus colegas professores.


Nesse momento de reflexão, veio-me como livre associação a fala do psicanalista Dunker, de que as pessoas se transformam por meio de palavras e relações. E não seria isso que nós, professores, sobretudo de Língua Portuguesa – puxando a brasa para a disciplina que se detém em pensar a linguagem –, procuramos proporcionar, na vivência de sala de aula?


Uma transformação dos estudantes por meio das palavras orais e escritas que intermedeiam as relações entre nós e eles e vice-versa, sempre com a esperança urdida à razão de aprimorar cada vez mais a capacidade de dialogar respeitosamente na convivência com a diferença, na defesa de pontos de vista e de seus direitos como cidadãos na escola e fora dela.


Contudo, tendo em vista a urgência que separa minimamente o plano de aula e sua execução, nem sempre podemos enxergar com clareza e rapidez os passos e sua ordenação para alcançar o propósito esperado, por exemplo, para o domínio das habilidades ligadas à produção escrita argumentativa; tampouco nos lembramos de partirmos do princípio, da oralidade, da língua natural falada pelas crianças e adolescentes.


Conscientes disso, mas também da nossa esperança e objetivo como professores de Língua Portuguesa, do curto tempo de planejamento que impera nessa vida laboral e do lapso de memória a respeito de ser a oralidade o princípio de tudo, as autoras apostam na compreensão entre os seres e na sua transformação por meio da palavra, a princípio pela oralidade, para fundamentar a prática didática que apresentam no livro Escrever e argumentar não é só começar. Defendem a oralidade como o pontapé inicial e o mediador entre a leitura e a escrita para desenvolver, como bem lembram, a lenta e trabalhosa comunicação escrita, em especial, aquela que busca defender ideias e fundamentá-las, aquela que é o calcanhar de Aquiles dos estudantes na prova do Enem, cujos resultados têm mostrado que não dá para deixar, como ressaltam as autoras, o desenvolvimento dessa capacidade apenas para o final do ensino básico.


Para isso, nada melhor que poder contar com um passo a passo que visa facilitar o ensino-aprendizagem de textos argumentativos escritos, privilegiando de antemão a oralidade e levando em conta o poder da palavra como linha fundamental para tecer as diversas interações sociais. Assim, se entrelaçam discussões orais, leituras, debates para fomentar a desenvoltura argumentativa oral e, a partir desta, o desenvolvimento da capacidade de produzir textos argumentativos.


Fundamentadas nas teorias do interacionismo sócio-discursivo, enfocam a dinâmica do júri simulado como uma das etapas relevantes a serem adotadas no processo para desembocar na produção escrita de textos argumentativos por alunos ainda no Ensino Fundamental.


O júri simulado, ou debate, como orientam os Parâmetros Curriculares Nacionais, não é um recurso metodológico inusitado, pelo contrário, se faz presente em aulas de diversas disciplinas com objetivo de incentivar os estudantes na compreensão de um conteúdo. No entanto, o que é inovador no livro das professoras é a apresentação do método como um dos passos entre outros que devem ser seguidos com uma ordenação determinada, de modo que essa articulação leve a uma produção argumentativa satisfatória.


O livro é dividido em três capítulos que se subdividem em várias sessões. Vistas pelo sumário, estas parecem apresentar muito conteúdo para ser tratado em apenas 127 páginas. Mas não é. No decorrer da leitura, o leitor perceberá que o propósito é ser ágil, sem deixar lacunas. Com o tom de uma conversa entre iguais, contando com o conhecimento prévio dos seus leitores, sem renunciar a indicações teóricas, o livro é um achado, é uma valiosa ferramenta na realização do plano de aula e em sua execução, voltada para o ensino da produção escrita argumentativa. Você pode ter se lembrado de vários livros de autores renomados no assunto. Entretanto, o diferencial deste é o foco que as autoras estabelecem em como fazer uma intervenção pedagógica com a qual se pode contar, de forma didaticamente explicitada, para começar a tratar da argumentação com quem ainda está longe de possuir as habilidades para colocá-la no papel.


No início do primeiro capítulo, as autoras ressaltam, em oposição à maior interação com textos narrativos nos anos iniciais do fundamental, a urgência de os estudantes entenderem “o funcionamento dos mecanismos de persuasão para assim desenvolverem o senso crítico [...]” (p.18), tendo em vista, por exemplo, as intensas tentações consumistas às quais as crianças são submetidas por todo lado, bem como a cultura contemporânea em que jovens de 11 a 15 anos já manifestam seus pontos de vista e recorrem ao discurso oral para persuadir os adultos, o que era inimaginável antigamente, segundo as autoras. Portanto, não cabe mais deixar o trabalho com a competência argumentativa para quando o Ensino Médio chegar.


Na sequência, o leitor já tem acesso ao funcionamento do Júri Simulado, com a descrição de cada passo que o antecede e o precede, mas de forma sucinta, para que o professor já possa ter uma visão do todo e, se assim preferir, adaptá-lo ao seu contexto de sala de aula. No entanto, se essa breve descrição inicial não for suficiente para colocá-lo em prática - objetivo maior do livro - segue um exemplo de aplicação da metodologia numa turma real do 5º ano, mas que serve perfeitamente para anos posteriores. A despeito de descrever todos os passos da aplicação, o fio da meada não se perde no percurso, mantendo uma escrita leve e ágil, condizente com a realidade da maioria dos professores da Educação Básica no Brasil, marcada pelo tempo escasso para leituras e para o preparo de aulas.


Mas os exemplos práticos não param por aí. No segundo capítulo, Os bastidores do júri, quando discutem a importância de cada etapa da prática, desde o papel do tribunal, passando pelo papel da coletividade, da oralidade e, sobretudo, da responsabilidade e disciplina que o júri simulado sucinta nos alunos, há uma amostra que comprova a eficácia da intervenção didático-pedagógica, comparando a produção de alunos antes do júri e após a sua participação.


A descrição da prática aplicada se refere a uma realização feita pela professora Siqueira que, além de lecionar, se detém em pesquisar os efeitos dessa proposta pedagógica, que ancora-se na eficiência de se percorrer o caminho do oral para o escrito como um meio eficaz para a produção argumentativa.


Destaca-se também a relevância do papel da professora, tanto para instigar a turma a discutir a questão escolhida – que deve acalorar os ânimos para pesquisar e saber mais sobre o assunto – quanto para incentivar os alunos a ler e escrever, já que, atuando como escritora, serve de modelo direto para os estudantes, do qual, segundo as autoras, não se pode prescindir e nem subestimar, pois a experiência tem mostrado “que os textos redigidos pelo professor são dos mais lidos e comentados pelos alunos” (p.77). Para comentários e análises do texto da professora, os alunos são guiados pelos critérios que se relacionam às habilidades previstas para aquisição da competência argumentativa. As autoras, porém, ressalvam o cuidado de não querer analisar todos em uma aula, correndo o risco de tomar muito tempo e de ser pesado para as crianças.


O terceiro capítulo, embora intitulado Além do veredicto, poderia ser considerado a hora do “veredito” sobre a prática, uma vez que se propõe a responder à indagação maior que norteia nossos objetivos ao proporcionar uma prática em sala de aula: “[...] os alunos estarão aprendendo aquilo que deveriam na disciplina Língua Portuguesa?” (p.87). Sem responder categoricamente, mas confiantes na validade da proposta, as autoras relacionam as orientações dos Parâmetros Curriculares Nacionais às habilidades abordadas no Júri Simulado, o que só vem a acrescentar ao planejamento agilidade e clareza para a efetiva realização da intervenção em sala de aula.


Ainda antes do fim, para os amantes da literatura e do cinema, o livro apresenta alguns exemplos para motivar o debate e, a partir dele, a produção escrita. Embora essa parte não seja detalhada como as anteriores, talvez merecesse outro volume, a visão predominante ao final da leitura é de um texto escrito com a clareza de quem conhece bem o chão onde pisa, o da sala de aula, como também os pressupostos teóricos que norteiam a proposta pedagógica, indicando na medida certa referenciais muito importantes, como Koch e Travaglia (1990), Marcushi (2007) e Ramos (2002), só para citar alguns que se dedicam ao estudo da argumentação e da oralidade. Portanto, trata-se de um livro para um leitor que precisa entrar amanhã em sala e introduzir o ensino e a aprendizagem da produção de textos argumentativos, movido por uma esperança racionalizada de provocar transformações pelas palavras e relações.




COMO CITAR ESTE ARTIGO:


SILVA, Marriene Freitas. “No princípio é a oralidade: argumentação no Ensino Fundamental”, em Revista Ponte, v. 2, n. 9, jul. 2022. Disponível em: https://www.revistaponte.org/post/princ%C3%ADpio-oralidade-argumenta%C3%A7%C3%A3o-ensino-fundamental




Marriene Freitas Silva é professora da Rede Municipal da Prefeitura de Belo Horizonte e Mestre em Línguística: área da Análise do texto e do discurso pelo POSLIN/FALE/UFMG.


Email: marrienefs@gmail.com





 

Este artigo foi importante para a sua reflexão? Então ajude a Revista Ponte a manter este projeto e conheça o nosso projeto de financiamento coletivo no Catarse.

 

Livro Resenhado:


SIQUEIRA, Cláudia; LUCAS, Rosana. Escrever e argumentar não é só começar. Belo Horizonte: Balão Vermelho, 2009. 128p.