Projeto LER PUC Minas: experiências de leitura e escrita com refugiados e migrantes

Igor Amaral Vitral Hollerbach Athayde é graduando em Letras pela PUC Minas e trabalha no Projeto LER, onde promove experiências de leitura e escrita com pessoas refugiadas e migrantes no Brasil. Neste artigo, Igor inaugura a sua seção temática na Revista Ponte.



Igor Amaral Vitral Hollerbach Athayde



“Somos todos migrantes. Alguns cruzam fronteiras”

Macarena Rodríguez




Os desafios da pós-modernidade, sobretudo num mundo com fronteiras em dissolução, manifestam-se em sala de aula e demandam dos educadores uma conscientização social cada vez mais ampla. As distâncias se encurtam, os contatos interculturais se multiplicam e a migração é um fenômeno corriqueiro. Ser professor nesse mundo globalizado significa lidar com a diversidade - de etnias, de culturas, de nacionalidades - construindo um ambiente humanizado e acolhedor. Essa demanda se intensifica em meio a uma das mais graves crises humanitárias da atualidade: o deslocamento forçado de milhões de pessoas pelo mundo.


Você já imaginou ver-se diante de uma guerra, de um desastre natural ou de uma crise política que pusesse em risco a sua vida e a de seus familiares? Já imaginou ter seus direitos mais básicos violados e ser forçado a deixar o seu lar? Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), essa é a realidade de 79 milhões de pessoas no mundo todo. São sujeitos diaspóricos que buscam acolhimento e enfrentam inúmeras dificuldades na luta por uma vida digna e por uma reintegração sociocultural plena. Uma dessas dificuldades é o aprendizado da língua do país de acolhimento - o primeiro choque que, muitas vezes, pode se impor como um obstáculo à reinserção do sujeito no mercado de trabalho, na vida acadêmica ou no exercício das demais atividades socioculturais. Dessa e de outras dores humanas, nasceu o Projeto LER: Leitura e Escrita com Refugiados e Migrantes no Brasil, uma iniciativa do Programa de Pós-Graduação em Letras da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais em parceria com o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJMR).


Para compreendermos o contexto e as atividades do projeto, é necessário fazermos a distinção entre dois conceitos-chave: migração e refúgio. Migrar é se deslocar, é movimentar-se pelo mundo. Por isso podemos dizer que, de certa forma, somos todos migrantes - embora nem todos cruzemos fronteiras. Entretanto, costumamos compreender como migrante aquela pessoa que assume o deslocamento geográfico, entrando ou saindo de algum país, estado, cidade ou região. Desses migrantes, alguns são forçados a deslocar-se por questões de sobrevivência, ameaçados por conflitos armados, por crises políticas e econômicas muito severas ou por violações sistemáticas dos direitos humanos - a esses sujeitos chamamos refugiados.


Todos eles, refugiados e outros migrantes, mobilizam suas vivências, seus saberes e seus afetos no enfrentamento dos percalços que se impõem à sua readaptação sociocultural - fenômeno marcado pelo processo de reconstrução identitária. São esses os aprendizes que procuram pelo Projeto LER.


No projeto, assumimos o ensino da língua na perspectiva do Português como Língua de Acolhimento (PLAc) (FERREIRA et al., 2019). O principal diferencial do PLAc é o ensino orientado às concretas demandas e potencialidades emancipatórias da vida dos aprendizes, em seu processo de integração no país que os acolhe. Os detalhes sobre a epistemologia e metodologia de ensino da língua serão explorados, nesta seção, em publicações futuras.


Entre as atividades desenvolvidas pelo Projeto LER, estão oficinas voltadas à prática contextualizada das quatro competências linguísticas: escuta, fala, leitura e escrita. Nessas oficinas, trabalhamos com textos de natureza diversa, produzidos em língua portuguesa, de modo a atender às necessidades comunicativas dos aprendizes, dialogando com as urgências de sua integração cultural e emancipação social no Brasil, país de acolhimento.


Ao longo do processo, os participantes são convidados a dizer de si, a compartilhar suas experiências de vida, seus valores e crenças, suas dificuldades e conquistas, seus sonhos e desejos, em diferentes situações e contextos. Essas narrativas emergem a todo momento em sala de aula e servem de matéria prima para o trabalho do professor-pesquisador.


O Projeto LER congrega extensão universitária e pesquisa científica em suas práticas pedagógicas, pois compreendemos que, como postula Paulo Freire (1996, p. 32), não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. Esses que-fazeres se encontram um no corpo do outro. Assim, nascem, no âmbito do LER, diversos trabalhos que investigam o processo de subjetivação, de construção identitária, à luz do reconhecimento da indissociável relação entre emoções, cognição e linguagem. Esse tipo de investigação orienta a nossa formação pedagógica e a nossa práxis dentro e fora dos limites do projeto.


Nossa comunidade é formada por professoras da PUC Minas, graduandos de cursos diversos (Letras, Pedagogia, Psicologia, Jornalismo, Direito, Cinema e Arquitetura) e cidadãos de diferentes nacionalidades, na condição de refugiados e migrantes residentes no Brasil. Em decorrência da pandemia da Covid-19, nos anos de 2020 e 2021, o projeto passou a ser desenvolvido totalmente na modalidade digital, o que nos trouxe inúmeros desafios, mas também a possibilidade de alcançar alunos em todas as regiões do país. A equipe docente realiza reuniões semanais de planejamento e encontros quinzenais para estudo e aperfeiçoamento. Além disso, também promovemos ações de imersão cultural para os participantes, abertas à comunidade de migrantes e refugiados. Entre essas, contamos com um cineclube e um clube de leitura, duas eficientes experiências de interação e de aprendizagem intercultural mútua onde desenvolvemos ainda mais o aprendizado da língua portuguesa e a troca de saberes entre a cultura brasileira e as outras expressões identitárias representadas pelos outros países de origem dos nossos estudantes. Essas atividades ocorrem em consonância com nossos principais pilares teóricos e metodológicos: a Educação como Prática de Liberdade (Paulo Freire) e a Pedagogia do Bom Senso (Célestin Freinet).


Com esta breve apresentação, deixo um convite: conheçam o Projeto LER, uma iniciativa comprometida com o direito à cidadania global, com a construção das bases de uma sociedade culturalmente diversa e com uma educação fundamentalmente humanista, afetivamente acolhedora.


Espero que os conhecimentos construídos no domínio de nossas atividades no projeto contribuam para a qualidade da prática docente - em qualquer nível, da educação infantil ao ensino superior - e sejam levados para a sala de aula, um ambiente cada vez mais marcado pela diversidade cultural e pela variedade linguística. Com o propósito de difundi-los, inauguramos, com este relato, a seção temática “Mobilidades culturais, transnacionalismo e educação”, na Revista Ponte. Daqui em diante, publicaremos discussões colhidas na rotina do Projeto LER e de experiências afins de ensino de língua, para, assim, esperançarmos juntos rumo ao Brasil sonhado pelo educador Paulo Freire: berço do “inédito viável”, um horizonte possível além da crise humanitária diante da qual nos encontramos.





Igor Amaral Vitral Hollerbach Athayde é graduando em Letras pela PUC Minas, extensionista e pesquisador no Projeto LER. É também colunista da Ponte, na seção Mobilidades Culturais, Transnacionalismo e Educação.

E-mail: igorathayde.pv@gmail.com



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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


CAVALCANTE, Sandra Maria Silva; MILITÃO, Josiane Andrade. Projeto Ler: uma experiência de leitura e escrita com refugiados e migrantes. In: PENZIM, Adriana Maria Brandão; ALVES, Claudemir Francisco; SOUZA, Robson Sávio Reis (org.). Na cidade: micropolíticas e modos de existência. Caderno temático n° 9. Minas Gerais: NESP, 2019

FERREIRA. L. C. [et al.] Língua de Acolhimento: experiências no Brasil e no mundo. Belo Horizonte: Mosaico Produção Editorial, 2019.

FREINET, C. Pedagogia do Bom Senso. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1984.

_________. Pedagogia do Oprimido. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1987.

_________. Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.