Problemas psíquicos na infância: o relato de Alda Lara


Os pesquisadores Fabio Mario da Silva e Paulo Geovane e Silva resenham a monografia da poeta angolana Alda Lara, apresentada em sua conclusão do curso de Medicina na Universidade de Coimbra. Nesse estudo, a autora trata dos problemas psíquicos desencadeados pela carência de cuidados familiares na primeira infância. A partir do trabalho de Lara, os autores discutem o papel do educador em casas de acolhimento, refletindo sobre os impactos do abandono e a importância do afeto no desenvolvimento infantil.





No seu trabalho de conclusão do curso de Medicina, na Universidade de Coimbra (Portugal), entre finais dos anos 50 e começo dos anos 60,¹ Alda Lara referencia todo um arcabouço teórico sobre as trocas afetivas e a sua importância para o desenvolvimento psíquico das crianças, entre a 1.ª e a 2.ª infância – do nascimento até os 11 anos.


Alda Lara constrói suas reflexões a partir do conceito de debilidade infantil, referido como consequência da hereditariedade e do meio (da família e do lar das crianças). A autora reconhece que há individualidade e condutas diferentes em crianças que reagem a condições sociais iguais, avaliando a influência do meio familiar em suas vidas. De acordo com o contexto da época, a criança teria, durante os três primeiros anos de vida, uma forte ligação com a mãe, de quem recebe os estímulos para o seu desenvolvimento. Lara afirma que, depois desse período, o pai ou o irmão assumiriam um papel de relevância no meio familiar, chegando à seguinte conclusão:


"As alterações de comportamento de que muitos pais se queixam em relação a seus filhos, tem, quantas vezes, por base, um problema afectivo, provocado por ciúmes de irmãos mais novos, ou bem dotados, ou então, pela profunda nostalgia de um companheiro de brinquedos – problema essencial de todo o filho único. Cabe aos pais, em ligação com os pedagogos e os pedo-psiquiatras, saberem dar valor a estas situações" (p. 142-143).


A autora menciona casos de crianças abandonadas pelas mães, temporariamente ou não, que acabam sendo acolhidas por gestores sociais em casas de acolhimento, indicando também que, naqueles pensionatos, as funções maternais são substituídas pelo papel feminino (monitoras, educadoras, enfermeiras, etc.). Além disso, Lara aponta, a partir dos estudos de Anna Freud e Burlingham, para as relações dessas crianças com um pai morto, um pai ausente e um pai imaginário. Tais considerações nos fazem pensar sobre a função do/a educador/a que trabalha, especificamente, em casas de acolhimento. Evidentemente, tais profissionais acabam se tornando um referencial para essas crianças, o que acentua as responsabilidades em torno dessa relação, que mescla trabalho e afetividade.


Para Alda Lara, o caso de crianças com deficiências psíquicas provocadas por carência de cuidados familiares acontece, mais precisamente, porque a sociedade capitalista desordenada acaba por criar problemáticas diversas e que encontram diversos reflexos no mundo infantil: a concentração suburbana, as dificuldades dos exilados pela guerra, o problema do alcoolismo, os alojamentos insuficientes, a prostituição, dentre outros.


Em outras palavras, a estrutura social falha em proteger ou tentar evitar o número crescente de crianças que acabam, por traumas de abandono ou por maus-tratos, desenvolvendo problemas psicomotores. Os educadores, as enfermeiras, as médicas e as monitoras realizam o seu trabalho nas instituições, não podendo substituir a figura familiar, apenas amenizando e ajudando no desenvolvimento e na recuperação dessas crianças. Diante disso, devido aos vários casos que aponta em seu trabalho de conclusão de curso, Alda Lara acaba por transcrever, no “Post-Fácil”, uma “Carta da Criança”, promulgada pela Sociedade das Nações como um documento que estabelece os direitos da criança.


Em suma, o que a autora indica é que o abandono e a carência familiar são problemas sociais que devem ser resolvidos e pensados (também) a partir do papel da escola. Lara aponta vários casos de crianças que acabaram se recuperando dos problemas de saúde advindos dos descuidos familiares, porque foram tratadas por uma equipe atenta de profissionais que as atendiam de maneira afetuosa. Passados quase 60 anos de sua monografia, parece que tais problemáticas se acentuaram em vários países, com um índice crescente de abandono e de maus-tratos às crianças.



[1] O trabalho só será publicado em livro em 1997, pelas Edições APPACDM, com o título: Deficiências psíquicas provocadas por carência de cuidados familiares.




Fabio Mario da Silva é professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA), com pós-doutorado em Literatura Portuguesa pela Universidade de Lisboa e pela Universidade de São Paulo (USP). Possui doutorado em Literatura e mestrado em Estudos Lusófonos pela Universidade de Évora.




Paulo Geovane e Silva é doutorando em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra (Portugal), pesquisador do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, escritor e membro do conselho editorial da Revista Ponte. É fundador do projeto Humanus e escreve mensalmente na Ponte, onde assina a coluna Educação Humanizada e novas agendas de aprendizagem.





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Referência:


LARA, Alda. Deficiências psíquicas provocadas por carência de cuidados familiares. Braga: Edições APPACDM Distrital de Braga, 1997.