"Proibido o uso de celular em sala de aula. Ah não, péra"


Neste artigo, a professora e pesquisadora Liliane Rezende apresenta reflexões sobre o uso das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs) em sala de aula. Relacionando-as às Metodologias Ativas, a autora defende que ferramentas como o celular e o computador são importantes aliadas nos processos de ensino e aprendizagem. Sendo assim, cada vez mais, educadores e educadoras devem incorporá-las em suas práticas pedagógicas, sobretudo na Educação Básica.


Fonte: Pexels



“Se o pensamento do educador ou da educadora anula, esmaga, dificulta o desenvolvimento do pensamento dos educandos, então o pensar do educador, autoritário, tende a gerar nos educandos sobre quem incide um pensar tímido, inautêntico ou, às vezes, puramente rebelde.” - Paulo Freire (2020, p. 163)


“É proibido usar o aparelho de telefone celular em sala de aula”. Essa era a frase expressa em plaquinhas coladas nas paredes das instituições de ensino até 17 de março de 2020. Porém, quando foram suspensas as atividades presenciais e possibilitada a implementação do regime remoto emergencial — através do parecer nº 05 do Conselho Nacional de Educação (BRASIL, 2020) —, a utilização de Tecnologias Digitais de Interação e Comunicação (TDICs) tornou-se imprescindível para a continuidade das atividades educacionais, e os equipamentos até então proibidos tornaram-se palco dos processos de ensino e aprendizagem. Essa situação produziu, no sistema educacional brasileiro, uma grande incoerência, haja vista que todo o acesso às atividades pedagógicas restringiu-se, de repente, àqueles que tivessem o domínio das tecnologias que vinham sendo, até pouco tempo atrás, sistematicamente proibidas.


Segundo Costa (2015), o termo Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) é mais comum quando o assunto são os equipamentos e dispositivos eletrônicos, incluindo também a internet. No entanto, aqui optamos pela nomenclatura TDICs, por ser essa a terminologia utilizada na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento parametrizador que orienta o currículo da Educação Básica no Brasil.


Na BNCC, as TIDICs são objeto de algumas das 10 Competências Gerais da Educação Básica. Um exemplo é o que se verifica na Competência 5:


Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva. (BRASIL, 2018, p.9)


As TDICs permitem que se acessem as informações com certa rapidez e facilidade, possibilitando novas formas de interação entre as pessoas, solucionando problemas os mais diversos, permitindo fazer simulações e visualizações, além da produção de narrativas digitais, como fotos e vídeos.

Os estudantes de Educação Básica da atualidade já nasceram no contexto da era digital. Para eles, é muito mais natural procurar informações sobre algum assunto em um mecanismo de busca como o Google — ou em vídeos sobre determinado conteúdo, por meio do YouTube — do que engajar em aulas expositivas tradicionais, com duração de mais de 30 minutos (VALENTE, 2018), que requerem maior nível de esforço, concentração e motivação. Além disso, muitos dos estudantes da Educação Básica são protagonistas nas diferentes redes sociais, produzindo conteúdo de áudio, vídeo, ou imagem em seus perfis, ou participando de equipes de jogos digitais e grupos de interatividade — dentre outras práticas mediadas pela utilização dos recursos tecnológicos digitais.


Sendo assim, destacamos o seguinte questionamento: em um contexto educacional no qual se fala amplamente em Metodologias Ativas, por que não considerar o processo de construção do conhecimento em relação às TDICs, tão utilizadas por esses estudantes?


Essa não é uma tarefa fácil, uma vez que a utilização das TDICs na educação envolve desafios referentes ao acesso a recursos tecnológicos digitais (seja na escola ou em casa), à utilização dessas ferramentas de forma ética responsável e à formação continuada do professor que atua na Educação Básica frente essas novas possibilidades.


Foi perceptível que, durante o ensino remoto permitido para a Educação Básica entre 2020 e 2022 (BRASIL, 2020), os professores tiveram que se reinventar e se adaptar frente às Tecnologias Digitais de Interação e Comunicação. Porém, muito do que se fez foi de forma espontânea e individual. Não se pensou em políticas públicas de formação continuada para a utilização das TDICs na educação.


O fato é que não existe mais a possibilidade de excluir as TDICs da educação básica. Sendo assim, o primeiro ponto que precisamos considerar é a consolidação de políticas públicas para a inclusão dessas tecnologias nos processos de ensino e aprendizagem. Nesses processos, os professores podem buscar algumas dentre inúmeras possibilidades de suporte, como, por exemplo, sites e plataformas educacionais, plataformas de vídeos, textos, fotos, entre outras. Todo material, escolhido de forma ética e responsável, pode contribuir para a inclusão das tecnologias digitais nos conteúdos escolares. Essa busca deve ser planejada para a melhoria dos processos e das práticas pedagógicas.


Algumas plataformas digitais são encontradas no próprio site do MEC, como, por exemplo, o GraphoGame, que ajuda estudantes da pré-escola e dos anos iniciais do ensino fundamental a aprender a ler. Outra possibilidade é a PLATAFORMA INTEGRADA – também disponível no site do MEC –, que consiste em um espaço dinâmico, onde se podem acessar mais de 20 mil recursos educacionais digitais para complementar o processo de ensino e aprendizagem.


O celular, a calculadora e o computador podem ser ferramentas potentes para os processos de ensino e aprendizagem, desde que nenhum estudante ou professor seja excluído desses processos. A inclusão de todos e todas em práticas educacionais voltadas para as tecnologias digitais contribui para a consolidação da alfabetização digital – um processo que, de acordo com Arrieta e Montes (2011), pressupõe criatividade, pensamento crítico e de avaliação, compreensão social e cultural, colaboração, habilidade para encontrar e selecionar informação, comunicação efetiva e segurança na Internet.


Sendo assim, concluímos que o trabalho com as TDICs na educação – sobretudo na educação básica – contribui para o desenvolvimento de habilidades e competências básicas para a formação de cidadãos críticos. Além disso, garante que os estudantes participem ativamente do processo de ensino-aprendizado. Trazer as TDICs para dentro das salas de aula, portanto, implica não somente em trazer inovações, mas em favorecer o desenvolvimento de habilidades diversas, promovendo o protagonismo dos alunos diante das novas formas de se construir e difundir conhecimentos.




COMO CITAR ESTE ARTIGO:


ANASTÁCIO, Liliane Rezende. “'Proibido o uso de celular em sala de aula'. Ah não, péra”, em Revista Ponte, v. 2, n. 9, mai. 2022. Disponível em:

https://www.revistaponte.org/post/proibido-uso-celular-aula




Liliane Rezende Anastácio é doutoranda em Educação pela Universidad Nacional de Rosario (Argentina), mestre em Matemática pela Universidade Federal de São João del-Rei, licenciada em Matemática (PUC Minas) e em Pedagogia (Centro Universitário de Maringá). Atualmente é professora e chefe do Departamento de Ciências Exatas da Universidade Estadual de Minas Gerais. Escreve mensalmente na Ponte, onde assina a coluna Processos de aprendizagem e tecnologias digitais.





 

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Bibliografia


ARRIETA, C. A.; MONTES, V. D. Alfabetización digital: uso de las TIC’s más allá de una formación instrumental y una buena infraestructura. Revista Colombiana de Ciência Animal, v. 3, n. 1, 2011. Disponível em: https://www.medigraphic.com/cgi-bin/new/ resumen.cgi?IDARTICULO=44800 Acesso em: 17 jan. 2015. » https://www.medigraphic.com/cgi-bin/new/ resumen.cgi?IDARTICULO=44800


BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Conselho Nacional de Educação. Parecer 05/2020. Reorganização do Calendário Escolar e da possibilidade de cômputo de atividades não presenciais para fins de cumprimento da carga horária mínima anual, em razão da Pandemia da COVID-19. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/conselho-nacional-de-educacao/atos-normativos--sumulas-pareceres-e-resolucoes/33371-cne-conselho-nacional-de- educacao/85201-parecer-cp-2020. Acesso em: 07 maio 2020.


COSTA, Sandra Regina Santana; DUQUEVIZ, Barbara Cristina; PEDROZA, Regina Lúcia Sucupira. Tecnologias Digitais como instrumentos mediadores da aprendizagem dos nativos digitais. Psicologia Escolar e Educacional, v. 19, p. 603-610, 2015.


FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Editora Paz e Terra, 2020.


VALENTE, José Armando. Inovação nos processos de ensino e de aprendizagem: o papel das tecnologias digitais. Valente, JA; Freire, F.-M.-P, p. 17-41, 2018.