Saídas para lecionar em tempos de pandemia

Nesta entrevista, a Professora Natália Verneque compartilha soluções, saídas e boas práticas educacionais que foi construindo para lecionar em tempos de pandemia. Confira.


Entrevista com Natália Verneque Abreu


Não temos controle sobre quase nada na vida e, com as práticas docentes na pandemia, via EaD, não seria diferente. Olhar para dentro e entender onde podemos evoluir é importante, mas saber que esse processo leva tempo e não se desenvolve como gostaríamos ou na rapidez que queremos também é importante.

Natália Verneque Abreu





A pandemia fez com que a escola perdesse a missão de ser catalisadora da igualdade, já que, em tempos de confinamento, muito são os problemas na implementação dos ensinos remoto e híbrido.


Na série Boas práticas em educação, a Revista Ponte tem o objetivo de ajudar professores/as e gestores/as que estão em processo de adaptação ao ensino domiciliar ou misto. O objetivo desta entrevista é identificar boas práticas educacionais que possam ser partilhadas com outros/as agentes da educação.


Na primeira entrevista desta série, falamos com Natália Verneque Abreu, professora de Língua Portuguesa e Produção Textual para o Ensino Fundamental. Natália é licenciada em Letras (PUC Minas/Universidade de Coimbra) e atua na rede privada de ensino em Belo Horizonte.




RP: Natália, obrigado por aceitar o convite para a nossa entrevista. Conte-nos um pouco sobre o seu trabalho.



NVA: Leciono Língua Portuguesa e Produção de Textos no Fundamental II – Anos Finais: sétimo e nono anos. No ano de 2020, o número de alunos com os quais trabalhei chegou a aproximadamente 207, com uma média de 30 alunos por turma. Trabalho apenas no Colégio Santa Maria, situado em Belo Horizonte.


RP: Como a pandemia afetou o seu trabalho no ano de 2020? Que problemas você enfrentou?


NVA: Os problemas foram vários: desde a implementação do sistema remoto até o entendimento da eficácia do ensino a distância para alunos e alunas tão jovens. A princípio, diante da novidade do EaD para as instituições, alunado e famílias, as aulas eram ministradas para todos os alunos da série simultaneamente e a primeira barreira que busquei quebrar foi o da interação via vídeo. Os alunos não se sentiam à vontade para participar das aulas, abrindo câmera e áudio. A aula acabou se tornando uma espécie de monólogo professor / computador, pois a sensação era de que não havia pessoas do outro lado das telas. E de fato não havia como saber se os alunos lá estavam! No segundo momento, já com o EaD mais organizado e com a instituição entendendo que o ensino remoto seria uma realidade mais longa do que se imaginava, começamos a ter aulas com as turmas separadamente, numa tentativa de reproduzir as salas como eram no ensino presencial. Os “monólogos” ficaram mais raros, porém ainda havia um grupo pequeno de alunos e alunas que se sentiam confortáveis para participar das aulas.


As realidades desses mesmos alunos e alunas em casa era um complicador. Mesmo trabalhando numa escola da rede privada, em que o acesso a TDICs parecia irrestrito ao alunado, essa utopia não se cumpriu. Nós, professores e professoras, não temos conhecimento, no ensino presencial, dos alunos bolsistas e carentes do Colégio. Há um esforço da família em fazer os filhos não destoarem dos demais na escola, com material e uniforme, por exemplo.


Mas no ensino remoto a demanda de alunos e alunas sem acesso à internet, computador e demais dispositivos tecnológicos ficou clara e chocante. Tínhamos que enviar as atividades à coordenação, que as imprimia e deixava à disposição das famílias para buscarem presencialmente na secretaria. Perdemos total contato com esses estudantes.


Os livros literários também foram deixados de lado: sem acesso à biblioteca e com as famílias passando por dificuldades financeiras devido à pandemia, sem poderem investir em materiais, não foi possível exigir dos alunos a leitura das obras literárias.


Veja então que todo meu trabalho foi afetado porque ele não chegava ao alunado como deveria. Se, no ensino presencial, conseguir medir o alcance do meu trabalho e como os alunos e alunas o processava e transformava em conhecimento já era um desafio, à distância ainda mais desafiadora essa medição se tornava. Poderiam questionar sobre “o número de alunos sem acesso ao EaD ser mínimo se comparado ao de alunos que conseguiram acompanhar as aulas e isso é positivo diante do cenário caótico”, mas não encaro assim.


Se não há acesso igualitário de todos e todas, o processo de ensino-aprendizagem já está errado e fadado a muitos problemas para esses estudantes, independentemente se o recorte for menor.


RP: Em meio a tantas complicações e dificuldades, o que você fez para superar os problemas colocados pela crise sanitária?


NVA: Eu sempre coloquei a empatia à frente do meu trabalho, entendendo que ela é uma construção política e social. A instituição em que trabalho buscou, dentro dos limites jurídicos e financeiros, oportunizar o EaD a todos os estudantes e isso foi muito positivo e acalentador para os professores que se preocupam com seu trabalho. E eu busquei ser, mais do que nunca, um ponto de acolhimento para esses alunos e alunas que estavam fora do convívio social da escola, presenciando as dificuldades várias de suas famílias e de si mesmos para serem tão responsáveis no ensino remoto. Foi importante ser mais flexível com prazos, entregas de atividades, por exemplo. Diante de tantas novas demandas práticas e emocionais, colocar-me no lugar desses estudantes e famílias aliviou o meu trabalho e também ajudou a manter a sanidade.


RP: No que diz respeito à gestão escolar, o que a sua escola fez para vencer os desafios colocados pela pandemia?


Penso já ter relatado um pouco sobre essa questão. A instituição conseguiu implantar um sistema de ensino a distância que se aproximou ao máximo do que seria uma escola de fato e nos moldes de conhecemos. Foram feitos treinamentos com os professores e momentos para partilhar experiências e ferramentas de ensino via TDICs e que foram importantes para seguir no EaD. Mas vale ressaltar também que muitos colegas enfrentaram diferentes desafios para trabalhar com as TDICs. Alguns chegeram a pedir licença do cargo, o que é um reflexo claro da falta de oportunização da formação continuada aos professores.


É claro que as TDICs estão cada vez mais presentes nos processos educacionais e isso não pode ser desconsiderado pelos profissionais, mas as demandas intermináveis dos professores, as duplas e triplas jornadas de trabalho para ter um salário minimamente digno e a responsabilização desse investimento apenas ao professores, como é comumente feito pelas instituições de ensino e gestores públicos, criam profissionais que não se encaixam, não conseguem dar conta das novas demandas e são cada vez mais desestimulados. É uma reação em cadeia, uma estrutura crônica na educação brasileira e o resultado catastrófico a gente já conhece!


RP: O que essa crise trouxe de transformador para a sua prática docente?


NVA: A crise sanitária me transformou em diferentes aspectos quando penso em meu trabalho, mas penso que o principal e mais evidente deles é a busca por novas formas de ensinar que incluam as tecnologias da informação. É claro que o acesso igualitário a elas ainda é um desafio a ser superado pelas instituições e que também passa pelos nossos abismos sociais, mas, enquanto for possível incluir meus alunos e alunas em práticas que as envolva, buscarei fazê-lo, pois penso que não há futuro na educação que não envolva as TDICs.


RP: Que mensagem você deixaria para as professoras e professores que ainda não se adaptaram ao ensino híbrido e/ou remoto?


NVA: Força e autocompaixão! Não temos controle sobre quase nada na vida e, com as práticas docentes na pandemia, via EaD, não seria diferente. Olhar para dentro e entender onde podemos evoluir é importante, mas saber que esse processo leva tempo e não se desenvolve como gostaríamos ou na rapidez que queremos também é importante.


RP: Para você, quais mudanças e transformações a pandemia trouxe para a educação?


NVA: Não falaria aqui de uma mudança porque penso que transformações duradouras levam tempo e investimento, mas penso que a pandemia deixou escancarar os abismos sociais que os estudantes vivem e a necessidade das instituições de cuidar do aperfeiçoamento de seus professores. Se antes existia uma falsa sensação de igualdade ou que esses abismos não fossem tão profundos, a pandemia mostrou que precisamos evoluir muito e passar por mudanças estruturais na política e no sistema econômico, as quais devem refletir na educação.


RP: Você indica alguma prática, material ou livro para a mitigação de problemas no ensino remoto em 2021?


NVA: Duas boas ferramentas que utilizei bastante no sistema remoto foram Padlet e Kahoot. Ambos gratuitos e que tornam as aulas mais dinâmicas e atrativas para os estudantes, com criação de murais interativos, jogos on-line e possibilidade de ensino híbrido.



FICHA TÉCNICA:

Entrevista original concedida à Revista Ponte.

Recebido em 23/02/2021.


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