Sociedade e educação no século XXI: os desafios da pandemia

Neste ensaio, o professor Pablo Almada constrói um panorama dos desafios impostos à educação no século XXI, diante dos percalços e das potencialidades do ensino remoto em tempos de pandemia. Nessas reflexões, emerge a necessidade do combate às desigualdades sociais e simbólicas, acentuadas pelos novos paradigmas de sociedade e ensino, de solidariedade e individualismo.



Para pensarmos as relações entre a sociedade e a educação no século XXI, exigem-se, certamente, duas percepções fundamentais: a primeira deve atentar para as capacidades - por parte do sistema de ensino - de criar metodologias e práticas que consigam promover um ambiente de igualdade - fazendo frente a tantas desigualdades sociais e simbólicas existentes; a segunda, gerada recentemente pela pandemia da Covid-19, diz respeito aos efeitos, que não serão poucos, para as próximas gerações, no que tange aos aspectos de solidariedade e de individualidade.


Para o primeiro problema, de ordem já bastante conhecida, retomemos a constatação de Pierre Bourdieu (1998) sobre o sistema escolar e sua importância na reprodução das desigualdades sociais.


Os sistemas educacionais e, especificamente, o sistema educacional brasileiro, em seus diferentes níveis, operam através de dispositivos de produção simbólica, pelos quais se cristalizam as diferenças através de uma aparência de homogeneização e de promoção de igualdades.


No entanto, é de questionar se alguns métodos e práticas aplicados em sala de aula poderiam oferecer um cenário de aprendizagem mais eficaz.


Jacques Rancière (1987), ao analisar a proposta do professor francês do século XIX, Joseph Jacotot, compreende que o propósito da instrução educacional é a emancipação intelectual. Esta pode ser alcançada rompendo com diversas crenças que causam o embrutecimento dos indivíduos, como a inculcação da existência de conteúdos inacessíveis, ou de diferenças de dotações intelectuais, entre outros aspectos dados como "naturais". A proposta de eliminação do explicador, do docente mediador, fato que a princípio pode causar estranhamento, é um desafio a ser ponderado. Ela propõe, além da promoção de métodos mais autônomos, a figura do "mestre ignorante", como aquele que não é um pleno detentor do conhecimento, mas que aprende a partir de sua prática e de modo horizontal com os/as alunos/as, à medida que haja uma fruição questionadora do conhecimento.


Seguindo essa mesma linha, que concatena questões referentes aos processos de ensino entre educadores e educandos, entre o saber/poder e o saber auto-reflexivo, é necessário refletirmos em que medida a educação deve ser feita, na expressão de bell hooks (2013), como uma "prática de liberdade".


A construção de um ambiente partilhado, de experiências e narrativas, por alunos/as e professores/as, permite a prática de um ensino engajado, que é combinado e articulado com as dimensões subjetivas e psicológicas dos agentes.


Essa construção não apenas aprofunda a ruptura com a educação fortemente explicadora e hierarquizada, mas também avança quanto aos sentidos humanizadores da educação, não apenas depositando e inculcando conteúdos, como diria Paulo Freire, mas fomentando o crescimento intelectual de docentes e discentes.


Desse modo, podemos tratar, com alguma segurança, do segundo conjunto de problemas acima mencionado: os efeitos sociais e educacionais da pandemia para as gerações futuras. Nesse caso, é preciso lançar luz a um paradoxo com o qual o sistema educacional, em seus diferentes níveis, está a lidar - e lidará - pelos próximos anos.


Dadas as restrições de circulação impostas à população, ou mesmo concebidas individualmente como estratégias de combate à Covid-19, os ambientes educacionais presenciais foram duramente afetados, com a suspensão das aulas e o funcionamento parcial de determinadas atividades. Isso resultou em pelo menos dois tipos de situação:


i) Escolas cuja implementação tecnológica já era consolidada - ou que apostavam no desenvolvimento do ensino a distância - puderam migrar, quase que imediata e tranquilamente, parte de suas atividades para o modo virtual, para o ensino remoto. Por outro lado, ii) escolas e sistemas educacionais que ainda não haviam consolidado essa tendência, ou ainda, que enfrentaram muito mais intensamente os problemas relativos às desigualdades sociais das mais variadas ordens, suspenderam as aulas sem que houvesse um oferecimento sólido e ágil de contrapartidas para a comunidade escolar.


Este é o cenário preponderante, que indica que 2020 consolidou-se como um ano de apagão escolar.


O relatório da ONU (2020), "Covid-19 and education", de agosto de 2020, atentou para o cenário catastrófico da educação global, onde escolas de mais de 160 países foram fechadas, afetando mais de 1 bilhão de estudantes pelo mundo, gerando a perda e o atraso na entrada de crianças na fase escolar e incontáveis casos de evasão. Entre outros efeitos notados, há a necessidade de mulheres assumirem os cuidados de crianças e jovens em fase escolar, eventualmente abandonando seus empregos. Esse efeito se desdobra no aprofundamento de desigualdades sociais e na perda de patamares que haviam sido conquistados anteriormente, e, principalmente, no declínio sem precedentes do desenvolvimento humano e do potencial intelectual por gerações a fio. O relatório indica ainda que os modos preferenciais de ensino remoto perpassam o modelo online, com uso de internet e redes sociais. O texto também reforça os impactos negativos sofridos pelos profissionais da educação, sobretudo aqueles de suporte técnico, os/as professores/as temporários/as e substitutos/as.


Se o ambiente escolar deixa de ter centralidade no processo educacional pós-pandemia, pensar alternativas emancipatórias e libertadoras parece ser um problema soterrado em um passado já longínquo. Embora haja uma condução política, explícita ou não, dessa crise, a grande maioria dos setores educacionais não vê alternativas - até que haja a imunização total da população, que ainda parece distante - a não ser aquelas pautadas pela ampliação tecnológica e de uso do ambiente online como forma de, pelo menos, remediar essa situação. É justamente essa ausência ou restrição de alternativas que nos permite identificar traços que já eram completamente notáveis antes da pandemia e que não mudarão tão cedo.


Quanto a essa continuidade, observamos que sob a égide de uma Sociedade Positiva, conforme definido por Byung-Chul Han (2012), os processos que demarcam a negatividade - ou seja, a alteridade, o alheio ou o diferente - passam a ser tomados por uma linguagem de transparência, que elimina divergências e que estabelece processos mecânicos de comunicação rasa, operacionais e calculáveis. Nesse sentido, toda e qualquer perspectiva de sofrimento deve ser recusada ou posta em segundo plano e, do mesmo modo, deixa intocada as diferenças que se estabelecem nos processos sociais e que os poderiam desestabilizar.


Seria possível tornar a pandemia e seus mortos tão transparentes que desaparecessem, pelo menos momentaneamente, das vidas privadas e das máculas deixadas nos sistemas educacionais?

O que queremos dizer aqui é que, com a pandemia, mediante o agravo das situações sociais de risco, das desigualdades sociais e simbólicas já existentes e que perpassam os sistemas educacionais, as tentativas de normalização e de "seguir em frente" inevitavelmente se edificam sobre escombros. Constitui-se um terreno fértil de positividade e otimismo com as benesses que o ensino remoto pode proporcionar com sua linguagem transparente, fato notavelmente sedutor para concepções políticas que minimizavam o potencial agregador da solidariedade social e que se beneficiavam da construção de discursos contrários, embora frágeis e alardeantes de ódios e ressentimentos. O desafio educacional passa a ser a construção de um ambiente real e compartilhado, pleno de subjetividades que possam, de fato, humanizar uma sociedade transparente e sobrevivente de um trauma humanitário.



COMO CITAR ESTE ARTIGO:


ALMADA, Pablo. “Sociedade e educação no século XXI: os desafios da pandemia”, em Revista Ponte, v. 1, n. 3, abr. 2021. Disponível em: https://www.revistaponte.org/post/soci-educ-sec-xxi-desafios-pand



Pablo Almada é sociólogo, com mestrado e doutorado pela Universidade de Coimbra. Atualmente é pós-doutorando em Ciências Sociais pela UNESP. Tem experiência na área de Sociologia e Ciência Política, com ênfase em Sociologia, atuando principalmente nos temas: Teoria Sociológica, Sociologia do Trabalho, Sociologia Histórica, Pensamento Social Brasileiro, Pensamento Político. Escreve mensalmente na Ponte, onde assina a coluna Sociologia e Educação no século XXI.


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Bibliografia


BOURDIEU, Pierre. Escritos de educação. Petrópolis: Vozes, 1998.


HAN, Byung-Chul. Sociedade da transparência. Petrópolis: Vozes, 2012.


HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: Editora WMF, 2013.


RANCIÈRE, Jacques. Le maître ignorant. Cinq leçons sur l'émancipation intellectuelle. Paris: Fayard, 1987.


ONU, United Nations Organization. Policy Brief: Education during COVID-19 and beyond. August, 2020. Acesso em 13 de fevereiro de 2021, Disponível em: https://www.un.org/sites/un2.un.org/files/sg_policy_brief_covid-19_and_education_august_2020.pdf.