Trabalho: o futuro do presente


Como escolher uma profissão hoje, na terceira década do século XXI? Como a Inteligência Artificial impacta nessa escolha? O que vai ser demandado do indivíduo no âmbito profissional?



Paulo Caetano



Há quem diga que, com a revolução 4.0 batendo à porta, muitas atividades serão executadas pelos algoritmos: imagine uma IA (Inteligência Artificial) proferindo, por exemplo, no âmbito do Direito, uma sentença judicial[1], ou, no âmbito da Medicina, construindo um diagnóstico para prescrever um remédio[2]. Ao que parece, esse futuro não está distante[3].


Além de atentar para essa mudança drástica advinda da tecnologia, o indivíduo também entrará em contato com algo já em curso: a “pejotização” do trabalhador, isto é, a passagem de Pessoa Física (PF) para Pessoa Jurídica (PJ). Nessa lógica, o então funcionário passa a se colocar como uma empresa a prestar determinado serviço. A “pejotização” é uma circunstância que não gera, para o contratante, vínculo empregatício e custos relativos a isso.


Então, se o indivíduo disser hoje “Trabalharei numa empresa X por décadas”, convém que ele reveja o cenário; e assim vai ver que é mais razoável usar outro tempo verbal: “Eu trabalharia naquela empresa por décadas”. O mais crível é que ele preste serviço, sendo PJ, para diversas empresas. Pode-se dizer que aquilo que foi a vida do avô Silvério no século XX (trabalhar 30 anos na siderúrgica Y, e então se aposentar) não ocorrerá com o trabalhador do século XXI, o qual provavelmente não terá vínculo empregatício por décadas numa empresa. Tal situação demandará espírito de improvisação, estudo contínuo e disposição – afinal, haverá ainda outras variáveis surgindo: a) provável inexistência de previdência pública; b) intensa complexificação da sociedade, que faz gerar novos trâmites e demandas, extinguindo assim postos de trabalho, fazendo surgir outros, com novos pré-requisitos.


Nesse pacote de mudanças, uma das solicitações que surge é que o indivíduo coloque outras energias no trabalho além da força física. Esta fora empregada de forma repetitiva na linha de produção, uma demanda exigida no fordismo; hoje, criatividade e singularidade, por exemplo, são aspectos fundamentais na corrida das metas a serem batidas, na constante demanda por resolução de problemas. Quem quiser vislumbrar isso, a solicitação de outras energias, pode assistir a “Fifteen million merits”, episódio da série Black Mirror[4].


Num ensaio escrito com Daniela Passos[5] (UEMG) em 2020, eu e ela discutimos como nesse episódio (que é um pouco caricato e inverossímil, mesmo para uma distopia) o trabalho exige do indivíduo um investimento na própria imagem, a qual é trabalhada nas academias de ginástica e visibilizada nas redes sociais, criando pequenos espetáculos a fim de saciar “micro” sadismos. Obviamente não são todas as atividades profissionais que demandam um corpo sarado e a notoriedade de milhares de seguidores; entretanto, tais aspectos tornaram-se capital social e são presentes em diferentes áreas.


A produção em série de um produto ainda existe, claro, como se pode ver em países como China e Índia (os grandes da indústria perceberam que era mais vantajoso concentrar a produção nalguns países cuja mão-de-obra é barata, e daí fazer a distribuição). Todavia, o episódio de Black Mirror sugere que a inteligência, a criatividade, a paixão, o desejo, dentre outras singularidades, também entram na fatura – e a tecnologia costuma ser o meio para canalizar tantas habilidades e competências.




Paulo Caetano é professor de Literatura e outros sistemas semióticos na UNIMONTES; doutor em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela UFMG. Autor de Achados Avulsos (ensaios). Escreve mensalmente na Revista Ponte.

E-mail: paulorcaetano@yahoo.com.br


Este artigo foi importante para a sua reflexão? Então ajude a Revista Ponte a manter este projeto e conheça o nosso projeto de financiamento coletivo no Catarse.

[1] https://www.conjur.com.br/2019-out-27/algoritmos-ia-sao-usados-robos-decidam-pequenas-causas https://epocanegocios.globo.com/Tecnologia/noticia/2019/04/estonia-quer-substituir-os-juizes-por-robos.html [2]O que de certo modo seria uma prévia do já usual comportamento de listar os sintomas no Google a fim de ter uma ideia do que se passa – e aí chegar ao consultório com um grau maior de informação. [3] Sobre isso, vale ouvir o Podcast “2025”, de Guga Stocco: https://podcasts.apple.com/br/podcast/2025-o-mundo-novo/id1462339772 [4]https://www.netflix.com/br/title/70264888 [5] “Trabalho: vazio e espoliação em ‘Fifteen million merits’ (Black Mirror)”, disponível em https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/revistateias/article/view/48648