Vida pós-pandemia: uma crítica do presente

Pablo Almada


Fonte: canva.com




A expressão Fake News começou a fazer parte da vida contemporânea muito recentemente, desde 2016, em especial para todos aqueles que acompanham a política. Naquele momento, essa expressão designou notícias falsas, como aquelas propagadas sobre as eleições presidenciais norte-americanas, que conseguiram diversos compartilhamentos nas redes sociais, tornando-se “virais”. As mais famosas propagavam questões que enunciavam a viragem conservadora da política americana e seus desdobramentos na política externa: “Wikileaks confirma que Clinton vendeu armas para o Estado Islâmico”, “Papa Francisco choca o mundo e apoia Donald Trump”[2]. Estava, portanto, estabelecido o mundo da pós-verdade, como uma consequência da criatividade ou da imaginação deformada, uma época de fatos alternativos que contrastam e devastam com valores sustentados pelas nações e pelas democracias[3].


Dois anos depois, as eleições brasileiras promoviam um volume de dados nunca visto nesses pleitos. Os instrumentos de propagação estariam mais complexos: se nas eleições americanas o Twitter e Facebook foram elementos de propagação das Fake News, agora elas teriam o mundo privado do WhatsApp como seu meio principal.


Grupos de familiares, amigos, profissionais foram inundados com vídeos, gifs, links do YouTube, textos encaminhados e sem autoria, entre outros. Um vasto material foi divulgado, com conteúdos suspeitos, erros de escrita, inconsistências lógicas. Em muito desse material, a notícia apresentada no título era diferente do real conteúdo, outros são vídeos editados (com uma estética bastante precária) ou, ainda, encontramos diversas notícias de sites que simulam veículos de comunicação renomados ou de grande circulação nacional. Estaria consolidada, agora no Brasil, uma poderosa estrutura de disseminação de Fake News: um imenso fluxo de imagens e de informações, ressignificando as vidas cotidianas, as visões de mundo, as identidades e as ideologias.


O Brasil, que até junho de 2013 tinha dificuldades em levar a política para uma discussão entre amigos ou para uma conversa informal – talvez pautada no credo, ou na “cláusula pétrea” moral e cultural, de que futebol, religião e política não se discutem –, assiste a uma reviravolta. A possibilidade de que muitos manifestantes tinham de filmar, fotografar e até mesmo transmitir ao vivo suas experiências de contestação e revolta permitiu efetivamente uma quebra no paradigma do monopólio televisivo e jornalístico, fato que já vinha sendo descentralizado, por conta de blogs, redes sociais, etc. A partir de então, noticiar fatos, produzir vídeos em real-time, compartilhar a experiência passou a estar cada vez mais acessível, tanto para os mais jovens, que incorporam e reproduzem no dia a dia esse uso tecnológico, quanto para os mais velhos, que aprendem facilmente a transitar nas redes sociais e na produção de conteúdo.


Imediatamente, essa mudança poderia significar a politização de diversas camadas sociais, mas, com o tempo, essa perspectiva acabou por ser frustrada. Se no início dos anos 2000 e 2010 haveria a busca pela construção de uma internet democrática e aberta, foram diversas as experiências negativas que potencializaram a aquisição ilegal de dados, a espionagem cibernética, entre outros. Novos espaços foram abertos, por meio de fóruns, de espaços de compartilhamento de conteúdo, em locais onde a internet poderia estar se tornando mais humana. As opiniões, as atitudes e visões de mundo passaram a misturar realidade e ficção, identidade real e virtual, criando um mundo em paralelo, em celulares, redes sociais, fóruns e outros espaços. A abertura participativa da internet proporcionada é um avanço democrático, mas, com ele, opiniões radicais também foram nutridas e disseminadas, seja na surface ou na deep web.


A disseminação de notícias falsas, de ódios, de preconceitos e ressentimentos que, até então, pouco habitavam o espaço público democrático, por serem relativamente opostas a este e por se nutrirem da obscuridade e da mitificação, passaram a ganhar espaço[4]. O fato é que não se pode ignorar a preponderância do mundo virtual regendo a vida dos indivíduos. Por isso, mediante uma situação como a atual, em que a pandemia do Coronavírus coloca em risco a toda a população, o mundo virtual deve ser repensado em seus fundamentos éticos, políticos e educacionais, pois ele é um meio fundamental de contato humano e sociabilidade, sobretudo num tempo em que se procura cumprir o isolamento social.

[1] Sociólogo e Pesquisador. Doutor em Democracia no Século XXI pela Universidade de Coimbra. Contato: pabloera@gmail.com. [2] G1, Notícias Falsas sobre eleição nos EUA têm mais alcance que notícias reais. 17.11.2016. Disponível em: http://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2016/noticia/2016/11/noticias-falsas-sobre-eleicoes-nos-eua-superam-noticias-reais.html. Acesso em: 05.05.2020. [3] Cf. Peters, Michael; Rider, Sharon; Hyvonen, Mats; Besley, Tina. Post-Truth, Fake News: Viral Modernity & Higer Education. Singapore: Spring Nature, 2018. [4] Nos Estados Unidos, nos últimos 10 anos, diversos massacres em escolas foram organizados ou compartilhados em espaços virtuais. No Brasil, em março de 2019, o caso do Massacre de Suzano é um exemplo de como há uma proliferação de ideias extremistas, as quais não se importam com as leis e com o direito que rege a sociedade: nutrem sentidos de vingança e ressentimentos que encontram, em outros indivíduos, meios e instrumentos para reações extremadas.